Freguesia de Maceira

 

 

Freguesia de Maceira

 

 

Resenha histórica

 

Tem longa história a povoação de Maceira.

Situada entre o mar e a serra, guardada por floresta e cruzada por caminhos e ribeiras, Maceira é o berço de gerações sucessivas que foram semeando habitações, embelezando o espaço e abrindo horizontes do tamanho do Mundo.

As suas gentes chegaram aos mais recônditos lugares, desde a Europa e África, até às Américas e Ásia. No entanto, a saudade e o amor às suas raízes quase sempre venceram: por isso, muitos regressaram à terra que os viu nascer, num abraço que jamais se desfará. Como diria Miguel Torga: Dei a volta ao Mundo, mas venho dormir à terra onde nasci…

Ignora-se quem foram os primeiros povos que habitaram estas paragens de Maceira. Tudo leva a crer que tenha sido habitada por povos pré-históricos, na medida em que foram encontrados nesta área utensílios dessa época, como pedras de corte, machados, sílex e outros. (Ver Homenagem aos Professores)

Não esqueçamos que, na Ribeira do Sirol perto de Leiria, foi descoberto o corpo de uma criança do tempo paleolítico, o internacionalmente conhecido Menino do Lapedo, com cerca de 25 mil anos.

O povo fenício, durante o primeiro milénio antes de Cristo, dominou o Mar Mediterrâneo e a costa atlântica da Europa mais tarde chamada Lusitânia. Os fenícios foram nesse tempo os grandes senhores do comércio e por eles passavam as especiarias do Oriente, os metais preciosos da Europa e o marfim de África.

Considerando as enormes transacções comerciais, os fenícios foram obrigados a inventar um sistema de escrita simples, fácil e rápida de interpretação. A eles se deve a criação do alfabeto, como conjunto de 23 sinais simples, correspondentes aos sons emitidos, o que poderá ter acontecido pelo ano 1300 A. C. Deste alfabeto fenício derivaram, mais tarde, os alfabetos grego e romano.

É natural que, nestas trocas comerciais, os fenícios transportassem também, nos seus barcos, emigrantes dos vários povos da bacia mediterrânica e que se vieram a fixar provavelmente também na Lusitânia.

Com a expansão do Império Romano, os lusitanos, povo que habitava entre o Tejo e o Douro, acabaram por ser dominados pelos romanos cerca do ano 25 A.C.

Foram estes, os romanos, quem mais valioso património deixou na região de Maceira. Encontraram-se lápides com inscrições funerárias (uma delas pôde ver-se, até há poucos anos, na parede da torre esquerda da Igreja Paroquial).

 

07.03.2013.25

Cipo com inscrição funerária, dedicada a Tibério Cláudio Máximo
D(iis) M(anibus) / TIBERIO / CLAUDIO / MAXIMO / A(lae) EQUIT(um)
(Aos Deuses Manes / A Tibério / Cláudio / Máximo / da Ordem de Cavalaria) 

 

Esta lápide foi retirada da torre da Igreja Paroquial de Maceira e encontra-se actualmente no Salão Paroquial. Presume-se que fez parte do mausoléu de um dos proprietários da Villa romana que dista da Igreja cerca de 200 metros a poente desta (ver foto um pouco abaixo).

Tibério Cláudio Máximo seria um colono romano que se instalou neste vale fértil do Arneiro, freguesia de Maceira, sob provável administração municipal de Collipo. Os arqueólogos datam a presente lápide como pertencendo aos últimos anos do século I (d. C.). Existem ainda outras duas lápides funerárias, provenientes da mesma villa romana, encontrando-se uma delas no referido Salão Paroquial e a outra na posse de um particular da freguesia do Juncal.    

Além de moedas e utensílios vários, foram igualmente encontrados, nas imediações da villa, restos de cimento branco e escuro, além de grande quantidade de escória de ferro, o que comprova a fundição de metais, técnica que os romanos dominavam, a partir de matérias-primas desta localidade. 

Ainda recordo o olhar maravilhado com que fiquei, ao observar directamente, nos anos cinquenta do século XX, os belíssimos mosaicos polícromos nas salas da casa romana, da referida villa, situada num campo entre o monte de S. Amaro e o Arneiro.

 

26.02.2013.15Local onde se situava a Villa Romana, no Arneiro (Maceira)
Incompreensivelmente, foi autorizada esta construção de moradia sem estudo arqueológico prévio 

 

As ruínas dessa casa romana estavam soterradas com areia, mas era possível descobrir a beleza dos pavimentos em mosaico com decorações  geométricas e cenas da Natureza.

No entanto, de mais rara beleza era a representação do mito de Orfeu que, ao som da lira, amansava as feras. Esta representação ocupava o pavimento da maior sala da casa. Infelizmente, passados alguns anos e por incúria das autoridades, os mosaicos com esta e as outras representações desapareceram, desconhecendo-se o seu paradeiro.

Houve quem afirmasse que se encontrariam no Museu de Londres. Nas deslocações que fiz a este museu na década de 70 do século XX, procurei cuidadosamente os paineis de mosaico que retenho na memória. Encontrei, de facto, a representação de Orfeu tocando a lira, mas com dimensões muito menores do que as do pavimento de Maceira e sendo proveniente de Cartago. Dos mosaicos que procurava, nem rasto… 

Com a queda do Império Romano do Ocidente, a Lusitânia foi ocupada pelos povos bárbaros germânicos, primeiro os suevos e depois os visigodos.

Também os árabes berberes por aqui habitaram. De facto, comprovam-no a toponímia (Alcogulhe, por exemplo), alguns vocábulos (alguidar, alpendre, entre outros muito usados nesta zona geográfica) e a arte em azulejo (ver fotos seguintes). Estes azulejos poderiam fazer parte do frontal do altar-mor e são dos primeiros anos do século XVI. 〈1〉

 

Azulejos de arte mudéjar, integrados na Igreja Paroquial de Maceira (provenientes da antiga Ermida de Santa Maria de Macenaria?)

 

Igualmente os judeus marcaram esta região, por altura da diáspora. Mais tarde, já nos séculos XV e XVI, deram origem às povoações de A-do-Barbas e de A-dos-Pretos (herdade ou quinta do senhor que usava barbas ou andava de preto, as formas típicas de apresentação dos judeus).

A primeira referência escrita à localidade de Maceira pode ler-se num documento de 1211, já instituída a nacionalidade portuguesa. Nele se descreve o compromisso entre os Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra e os clérigos porcionistas ou raçoeiros de Leiria.

Nesse documento, com data de Dezembro de 1211, aparece o nome de uma ermida chamada Sancte Marie de Macenaria 〈2〉, a par com as ermidas de S. Pedro de Ulmar, S. Pedro de Muel, Santa Maria de Magueigia, S. Miguel do Monte e S. Lourenço de Carvide. 

Transcorridos exactamente oito séculos sobre a data dessa convenção (1211-2011), é curioso verificar que as grandes linhas da divisão geográfica e populacional desta área de Leiria se encontravam já estabelecidas. Nesse documento estão mencionadas as localidades, por exemplo, de Colmeias, S. Simão de Litém, Espite, Agodim, Lagoa das Matas, Quintas do Sirol, Caldelas e Souto.

No Livro I de Doações de D. Affonso III, com data de Março de 1264, firma-se um acordo de troca de bens entre El-Rei D. Afonso III de Portugal e o Prior do convento e mosteiro de Santa Cruz de Coimbra: El-Rei compromete-se a ceder pelo castro de Arronches, na fronteira com Castela e na posse do Priorado de Santa Cruz, uma série de reguengos (isto é, bens régios), entre os quais “totum regalengum suum de Maçanaria quod est in termino de Leyrena” (‘todo o seu reguengo de Maçanaria que se encontra nas imediações de Leiria’).

Assim, desde meados do séc. XIII, esta região de Maceira, incluindo a ermida de S. Maria de Macenaria, ficou na posse do Priorado de Santa Cruz de Coimbra.

 

Origem do nome – Maceira

 

O nome da ermida Santa Maria de Macenaria reflecte certamente o topónimo. O nome dado às localidades deriva, muitas vezes, de características do terreno (Brejo, por exemplo), da cultura predominante (Pinheiros), ou ainda de algum facto identificativo saliente e de todos conhecido.

Neste caso, Macenaria ou Maçanaria é um nome que está ligado a árvore(s) de fruto, especificamente macieira(s).

Gramaticalmente, Macenaria pode considerar-se ou nome singular ou nome colectivo. Se o considerarmos como nome singular, indicaria “uma arvore collossal do mesmo nome, que existia no sítio”, como diz o Cón. Pereira da Costa na sua Breve Memoria da Egreja Parochial de Maceira〈2a〉 Certamente que esta seria a tradição oral popular, de que a lenda de Nossa Senhora da Mac(i)eira é reflexo (ver nota 2, no final do texto). 

Se, pelo contrário, considerarmos que Macenaria é um termo colectivo, então indicaria a existência de um pomar ou conjunto de árvores de fruto (como pradaria é um conjunto de prados).

Assim, por este referencial se reconheceria, melhor que por qualquer outro, esta localidade (Macenaria). Este topónimo indicaria a terra onde se produziam esses frutos e onde se construiu aquela ermida em honra de Santa Maria, ficando a ser chamada Santa Maria de Macenaria. 

Poderá alguém perguntar: Que fundamento existe para ligar Macenaria com determinada árvore, macieira neste caso?

As duas palavras (Macenaria ou Maçanaria e macieira) têm em comum a mesma raiz, derivada de um nome próprio: Mácio (em latim, Matium que se lê Macium, na pronúncia romana).

Mácio era um cidadão romano, que viveu no século I antes de Cristo, amigo de Cícero (filósofo, escritor e político, que morreu assassinado a mando de Marco António no ano 43 a. C.).

Mais tarde, Mácio tornou-se também amigo de César Augusto (o 1.º imperador de Roma, sobrinho-neto de Júlio César e seu sucessor). De César Augusto se fala no cap. 2 do Evangelho de S. Lucas, a propósito do primeiro recenseamento feito em “toda a terra”, coincidindo com o nascimento de Jesus Cristo.

Mácio era uma pessoa a quem chamaríamos hoje profissional de Botânica. É considerado o inventor dos enxertos 〈3〉. Os romanos, nas suas conquistas, de modo geral não destruíam a cultura dos povos dominados. Admite-se que Mácio fosse responsável pela difusão de árvores de fruto, a partir das diversas colónias romanas.

  O seu nome (Mácio) ficou relacionado com árvore de fruto: em latim, malum matianum (fruto de Mácio) é um fruto com pevides ou caroço.

Tenha-se presente a evolução linguística do português: Matiana (baixo-latim) é o plural neutro de malum matianum (fruto de Mácio), tornando-se o nome próprio do objecto a que se refere – maçã (como acontece à expressão galgo em vez de canis gallicus, ou pêssego em vez de pomus persicus ou fruto da Pérsia).  

Matiana (lê-se maciana, seguindo a pronúncia romana) é a mais antiga forma no português para indicar o fruto da macieira; ainda hoje, os habitantes de Trás-os-Montes usam a palavra maçana para dizer maçã (segundo as regras da evolução linguística do português, o n intervocálico cai, mas mantém-se o som nasalado, dando origem à palavra maçã). Por sua vez, Gil Vicente usou a forma antiga mançana nos seus versos. De matiana e maçana derivaram, entre outros, alguns topónimos como Macedo, Macieira, Maceira e Maceirinha (nomes próprios e apelidos).

Se atendermos às regras da evolução do português, isto é, as regras da gramática histórica, podemos verificar como a palavra Macenaria ou Maçanaria veio, no decorrer dos séculos, a dar Maceira:

1. O n intervocálico cai, tornando-se Macearia ou Maçaaria.

2. O i transpõe-se da última para a penúltima sílaba, ficando Maceaira ou Maçaira (o povo ainda hoje diz campanairo em vez de campanário, e breviairo em vez de breviário).

3. O a abranda para e, adoptando a forma Macieira ou Maceira.

4. Macieira mantém o i do latim matiana e matianaria (plural neutro, que se adoptou em português como feminino singular).

Em conclusão: O topónimo Maceira derivou de macieira ou árvore que produz maçãs. A justificá-lo estão as provas de carácter histórico, documental, filológico e etnográfico anteriormente expostas.

Há quem alvitre que o nome Maceira possa ter derivado de masseira ou amassadeira, termos que indicam o tabuleiro ou bacia onde se mistura a farinha com o fermento e água, aí ficando a levedar. Talvez essa hipótese tenha como base a existência de vários moinhos de cereal perto da Igreja, ou ainda a semelhança entre o vale de Maceira e um tabuleiro ou amassadeira. Não parece haver, no entanto, suporte histórico, documental, linguístico ou etnográfico, a comprovar tal opinião.

Outra questão interessante é saber como nos devemos referir à nossa freguesia: Sou de Maceira, ou: sou da Maceira? vou passar por Maceira, ou: vou passar pela Maceira?

Não há regras linguísticas fixas para responder à questão. A regra geral é a de que, quando o nome do local é também usado como nome comum, usa-se o artigo. Por exemplo: Vou à Batalha, ou então, sou da Batalha, ou sou do Porto, etc. porque batalha e porto são igualmente nomes comuns. Mas nem sempre a regra é seguida: por exemplo, vou a Pombal, e não ao Pombal.

Em geral, importa atender à forma como os naturais falam. Só bastante recentemente, alguns começaram a pronunciar «sou da Maceira». Mas esta formulação distancia-se da norma secular dos naturais que dizem «sou de Maceira».

 

Maceira no mapa mais antigo de Portugal

 

O mapa mais antigo de Portugal, com as suas fronteiras bem definidas em relação aos Reinos da Galiza, Leão e Andaluzia, foi desenhado pelo cartógrafo Fernando Álvares Seco, de quem pouco se conhece. 

Curiosamente, o mapa apresenta-se rodado em relação ao que é habitual vermos. Conforme se pode verificar em seguida, na foto, em vez de o oceano Atlântico ser representado à esquerda, Portugal aparece com o «Oceano Ocidental» em cima, como se fosse a cabeça da Europa.

Nele aparecem bem visíveis os rios, sobretudo Minho, Douro, ria de Aveiro, Mondego, Guadiana e sobretudo o Tejo. Deste modo se representa a abertura de Portugal aos mares e a importância dos Descobrimentos para a história mundial. Por outro lado, as fronteiras são demarcadas pelas povoações que enxameiam o território português, enquanto os reinos vizinhos aparecem como se fossem um deserto.

O mapa original, manuscrito, foi oferecido como presente ao Cardeal Guido Sforza, grande amigo e protector de Portugal, por Aquiles Estaço, um famoso humanista português a residir em Roma. Esta oferta ocorreu por ocasião de uma embaixada que D. Sebastião enviou a Roma, pouco depois de ser aclamado rei de Portugal. O discurso perante o papa Pio IV, a quem o rei D. Sebastião prestava obediência, foi preparado e lido por Aquiles Estaço, a 20 de Maio de 1560. 〈3a〉

O mapa original desapareceu, mas dele foram feitas cópias em tamanho mais reduzido, editadas em 1561 na cidade de Veneza. Um destes exemplares foi adquirido no ano de 2005 pela Biblioteca Nacional de Portugal e outro foi doado por um particular à Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Em 1565 e segundo alguns historiadores, na cidade de Antuérpia (Holanda) foi impressa uma outra versão do mesmo mapa, desta vez em tamanho maior, mas com variações e alguns lapsos em relação à cópia de 1561. No entanto, a referida versão apresenta a data de 20 de Maio de 1560, como se pode verificar em seguida (corresponde ao dia XIII das Kalendas de Junho, segundo o calendário latino).

 

Mapa mais antigo de Portugal (cópia)

 

Mapa de Portugal, outrora Lusitânia, por Fernando Álvares Seco 

 

Dedicatória a Guido Sforza e, no final, a data de 20 de Maio de 1560 (corresponde ao dia XIII das Kalendas de Junho, no calendário latino)   
Aquiles Estaço saúda Guido Ascânio Sforza, Cardeal Camareiro da Santa Igreja Romana.
Guido Sforza:
Atendendo à protecção dispensada ao nosso povo, dedicamo-Vos o mapa da Lusitânia, representado pela arte de Fernando Álvares .
Deixando a sua pátria, homens de imensa coragem e ventura percorreram o mundo inteiro,
submeteram ao seu poder, como província, grande parte de África,
foram os primeiros a descobrir inúmeras ilhas de cuja existência apenas se conhecia o nome, ou ainda nem sequer o nome;
assenhorearam-se da Ásia, terra opulenta, submetendo-a ao pagamento de tributo;     
ensinaram aos mais distantes povos o culto e a religião de Jesus Cristo.
Saúde!
Roma, dia XIII das Kalendas de Junho 

 

Maceira no mapa mais antigo de Portugal

 

Como se pode verificar, a freguesia de Maceira aparece relativamente bem posicionada, havendo a indicação de uma localidade próxima com nome intrigante: Porquarias. Será a aldeia conhecida hoje por Pocariça? (Ver Enquadramento histórico, nota 3)

 

A Igreja Paroquial de Maceira

 

A ermida de Santa Maria de Maceira era, seguramente, o centro polarizador para onde convergiam os habitantes desta área e lhes foi criando a consciência de unidade paroquial.

Sempre terá havido uma forte ligação entre esta ermida e os proprietários da herdade que a rodeava. Esta, pelo acordo atrás referido entre o rei D. Afonso III e o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, ficou na posse deste último desde 1264.

A identidade, como paróquia, desta comunidade de Santa Maria de Maceira foi reconhecida em 1517, data do seu Padrão ou documento escrito em pergaminho e assinado pelo Cardeal Dom Afonso, filho do rei D. Manuel I, Infante de Portugal e Administrador do Arcebispado de Lisboa, dos Bispados de Évora e Viseu, e ainda Administrador dos Mosteiros de Santa Cruz e de Alcobaça, estabelecendo que nessa Ermida «se pozesse Pia de batizar e se dissece missa aos Domingos e festas por hum Capelão que os freguezes pagariam».

O mesmo Padrão, que desapareceu e dele apenas se conhecem cópias, estabelecia que a nova paróquia era desmembrada da Igreja de Santo Estêvão de Leiria, com conhecimento do Vigário da Vila de Leiria, Cabido e Beneficiários da Igreja de Nossa Senhora da Pena da referida Vila. Incluia as povoações de Pisões, Porto do Carro, A-do-Barbas, Mélvoa, Marinha (seria a Marinha Pequena, perto da Pocariça, em oposição à Marinha Grande), Ribeira de Maceira, as Pocariças 〈4〉, Alcogulhe, Cavalinhos, Vale da Gunha, Mangas, Casal do Salgueiro, Arnal com os moinhos, o Moinho de Gregório Rodrigues, e os Moinhos de Cima de Maceira, num total de 80 fregueses ou fogos.

Surgiu entretanto um diferendo: o Licenciado Bastiam (Sebastião) da Fonseca, que possuía, ao tempo, a herdade junto da Ermida de Santa Maria de Maceira, alegou que tinha o direito de escolher o capelão da nova paróquia, uma vez que fizera diversas benfeitorias nessa Ermida e tinha intenção de a reformar de novo e adornar com novas jóias, com o que gastava muito da sua fazenda; por seu lado, os beneficiados da Igreja de S. Estêvão reclamavam os seus direitos sobre a mesma Ermida. O desembargador da corte d’el-rei, Christovam Estevens, dirimiu a questão na presença de Sebastião da Fonseca e do Procurador do ‘Cabido da Villa de Leiria’, concedendo ao primeiro a legitimidade de escolher capelão para a ermida de Maceira, mas convidando primeiro os beneficiados daquela Vila.

Admite-se que, entre as benfeitorias executadas por Sebastião da Fonseca na Ermida de Santa Maria de Maceira, esteja o seu alargamento ou ampliação, ao estilo do tempo (o estilo manuelino), mas também a construção de uma passagem interna entre o seu palácio e a capela-mor da ermida, onde havia uma tribuna para uso exclusivo da família Fonseca (provavelmente estaria colocada na parede lateral da capela mor, do lado esquerdo: estaria aqui a janela da actual fachada da Igreja?).

Francisco da Fonseca, filho de Sebastião da Fonseca e de Joana Monteiro, mandou construir a Capela do Pranto ou Descida da Cruz, terminada em 1565, em estilo renascentista. O povo de Maceira chama-lhe Capela dos Santos Brancos: trata-se de um retábulo de pedra, donde emergem as figuras de Jesus, morto no regaço de sua Mãe, das santas mulheres e do apóstolo S. João que se encontra à direita de Nossa Senhora, ao mesmo nível. Ressaltam, lateralmente e de pé, duas figuras: podem identificar-se como sendo José de Arimateia com os produtos de preparação para a sepultura (à esquerda), e Nicodemos conservando os cravos nas suas mãos (à direita). 

Esta cena tem, como fundo, a Cruz de Cristo que domina as cruzes dos dois ladrões ainda suspensos, e vêem-se, como primeiro fundo, os palácios da Cidade Santa de Jerusalém. No sopé, aos lados do sacrário, encontram-se figurados os quatro evangelistas. Inicialmente, as figuras não eram pintadas, e por isso o povo as conhecia como ‘Santos Brancos’; este nome perdurou, apesar de posteriormente terem sido pintadas (de novo?).

 

Pietà de Maceira ou Capela dos Santos Brancos (Capela do Pranto)

Alto relevo figurando a deposição da Cruz: Igreja Paroquial de Maceira

 

Aspecto da cúpula, com símbolos bíblicos, da Capela dos Santos Brancos

(Igreja Matriz de Maceira)

 

Neste contexto, são elucidativas as informações prestadas pelo Pároco de Maceira em 1721, Padre Luiz Vieira de Souza, em resposta a questionário enviado pela Academia Real de História (ver Párocos de Maceira). Este texto é inédito e, pela primeira vez (Junho de 2016), se apresenta transcrito e se pode ler integralmente no final da presente página. Nele se encontram informações preciosas sobre a história da freguesia e seus habitantes. Particularmente curiosa é a concepção que se tinha sobre as doenças, em especial o cancro. 〈5〉

Ainda hoje podemos apreciar o pórtico da entrada principal da Igreja de Maceira e a janela da fachada, a porta do Sol e a pia de água benta que lhe é próxima, a pia baptismal e a janela da capela-mor, em estilo manuelino. O seu autor poderá ter sido Diogo Boitaca, pessoa das relações de Sebastião da Fonseca. Todos estes elementos de estilo manuelino foram desmontados na altura da remodelação da igreja, feita entre 1887 e 1904 pelo senhor Cónego Pereira da Costa, e recolocados nos lugares onde hoje os podemos ver (ver página Párocos de Maceira).

 

Fachada principal da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Luz de Maceira, após remodelação e ampliação pelo Cónego Pereira da Costa (1904). Antes destas obras, havia apenas uma torre à esquerda, que foi demolida por ameaçar ruína.
(Ao centro, entre as duas torres, está a imagem da Padroeira, N.ª S.ª da Luz, que inicialmente se encontrava dentro da igreja)

 

Pia baptismal da Igreja Matriz de Maceira (estilo manuelino)

 

Pia de água-benta, junto da Porta do Sol, da Igreja Paroquial de Maceira
(Estilo manuelino)

 

 

Quinta do Paraíso

 

É hoje possível, mercê da investigação do ilustre maceirense Dr. Luciano Cristino, seguir os diversos titulares da propriedade conhecida por Quinta do Paraíso, ao longo dos séculos. Esta herdade, ou quinta, esteve e manteve-se intimamente ligada à instituição da paróquia de Maceira, em 1517.

 Mas já antes do século XVI este local fora centro de exploração de tufo e outros materiais como matéria-prima para fabricação de metais e cimentos. Foi neste sítio que se encontraram escórias de ferro e restos de cimento branco e escuro do tempo dos romanos. Havia amplas condutas subterrâneas de água, com inclinação estudada, para mover moinhos ou azenhas aí existentes.

A água, proveniente da ribeira que passa pela Fonte do Rei e recolhe as águas do extenso vale iniciado próximo da Cerca, ao chegar à Quinta do Paraíso era dividida por essas condutas subterrâneas, semelhantes à que ainda hoje existe e leva a água até à cascata da Senhora da Barroquinha. 

 

Cascata Senhora BarroquinhaCascata da Senhora da Barroquinha
A água, antes da queda, passa por conduta subterrânea entre a Igreja Paroquial e a Quinta do Paraíso 

 

A história da Quinta do Paraíso nem sempre foi pacífica. De facto, em 1673 o Santo Ofício da Inquisição em Portugal levantou um processo de inquirição sobre as origens de ‘sangue puro’ (isto é, sem sangue judeu e, portanto, cristão-velho) de Bernarda Cerqueira, com 80 anos e viúva de Manuel Botelho, proprietários da Quinta de Maceira. Pela suspeita de ser cristã-nova, perdeu o direito de posse da quinta, arrestada pelo Santo Ofício.

Nos princípios do século XX, a Quinta do Paraíso foi adquirida pelo Senhor José de Sousa (o ‘Brasileiro’). Natural de Maceira (Pocariça) e filho de João de Sousa Padeiro e de Anna de Sousa Barbeiro, casou com Rosalia de Jesus, filha de Joaquim Coelho e de Eufrazia de Jesus, do lugar da Moita, freguesia de Pataias. Foi pai de numerosa família.

Numa das suas deslocações entre Maceira e Pousos, onde também possuía uma quinta (ver página Notáveis de Maceira, nota 4.), ao passar por Leiria e vendo a imagem de S. José (seu onomástico) lançada à rua por ter sido retirada do convento de Santa Ana em Leiria, por ocasião da implantação da República, adquiriu-a e trouxe-a consigo para Maceira. Assim, evitou que fosse queimada, como aconteceu a muitos outros objectos de culto do referido convento.

 

Imagem de S. José (séc. XVIII), salva da destruição em 1910 por José de Sousa; encontra-se na capela da Pocariça
(Cortesia do Departamento de Património Cultural da Diocese de Leiria)

 

José de Sousa entregou a imagem ao Senhor Cónego José Pereira da Costa, então Prior de Maceira, que a colocou na capela da Pocariça, cuja construção promovera.

De facto, por ocasião da peste de 1856, alguns habitantes da Pocariça haviam feito a promessa de construir uma capela dedicada ao mártir S. Sebastião, mas este voto não chegou a ser cumprido em vida dos que o fizeram. Eram (e são) padroeiros, da referida capela da Pocariça, S. Sebastião e Nossa Senhora de Lourdes (esta imagem foi oferecida pelo próprio Senhor Cónego, conforme refere nas suas Memórias). No entanto, a imagem de S. José ficou colocada em lugar de destaque, na parede frontal da capela-mor. Foi  recentemente retirada do seu lugar original: esperamos que não venha a ser vandalizada, apesar de se encontrar em mau estado de conservação…

 

DSCF3726Capela da Pocariça – Maceira, onde se encontra a imagem de S. José

 

Dos filhos de José de Sousa, permito-me recordar o Dr. Afonso de Sousa, conhecido advogado de Leiria e célebre guitarrista-poeta do fado de Coimbra, e Vergílio de Sousa, grande conhecedor da cultura maceirense e da sua História (ver página Notáveis de Maceira).

Nos finais do século XX, a Quinta do Paraíso perdeu o seu estatuto e foi desmantelada, terminando assim a História de longos séculos de polarização social e económica.

 

Freguesia de Maceira

 

A freguesia de Maceira sempre teve ligação directa e privilegiada com Leiria, em cujo concelho e comarca ficou integrada, salvo pequenos lapsos de tempo.

De facto, em 1836 esteve ligada ao concelho da Marinha Grande até 1838, data em que este mesmo concelho foi extinto. Registe-se, como curiosidade, que apenas em 2011 foram acordados os limites entre as freguesias de Maceira e Marinha Grande (áreas de Picassinos, Casal da Lebre, Telheiro, Pocariça e Marinha Pequena).

Por sua vez, também o concelho da Batalha integrou a população de Maceira, que, por esse motivo, ficou a pertencer à comarca de Porto de Mós. Mas não foi pacífica tal integração. Em 1878 houve o aproveitamento das assinaturas de alguns maceirenses para abonar a mesma integração, dizendo-se-lhes que se tratava de abaixo-assinado para que Maceira voltasse ao concelho e comarca de Leiria. Sentindo-se enganados, solicitaram a um tabelião (notário) para que redigisse uma Pública-Forma a repor a verdade, isto é, que nunca assinaram qualquer petição para que a freguesia de Maceira pertencesse ao concelho da Batalha e à comarca de Porto de Mós; pelo contrário, desejavam que voltasse a pertencer ao concelho e comarca de Leiria. Entre as diversas assinaturas figuram as de Januario Gaspar (ver página Regedores em Maceira) e de Joze Mathias (ver página Família Mathias). A pública-forma foi entregue a Jose Antonio Loureiro (ver pág. Regedores em Maceira).

Em 19 de Fevereiro de 1904, o Presidente do Conselho de Ministros Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro assinou um decreto a estabelecer os limites, anteriormente ‘confusos e contestados’, entre as freguesias de Maceira e Batalha, aceitando o parecer de uma Comissão nomeada para o efeito e referindo que as respectivas cartas e plantas ficariam arquivadas e autenticadas. No entanto, não foram encontradas, nem sequer o decreto a nomear a referida Comissão. Apesar disso, hoje não existe contencioso entre as duas freguesias.

 O povo de Maceira é multifacetado. De modo geral pacato, tem amor à sua terra, que procura valorizar. Descendente de sangue e culturas diversificadas, nele se cruzam modos e feitios. Lusitanos e fenícios, judeus e árabes, romanos e eslavos constituem mescla que o bom povo de Maceira reflecte.

 

Actividades económicas em Maceira 

 

As condições geográficas determinam, em grande parte, o estilo de vida e de personalidade dos que aí habitam.

O estilo de vida, a personalidade e as actividades a que se dedicam os habitantes da planície, do litoral ou da serra, são bem diferentes entre si. São tão específicos de cada um dos ambientes, que se torna possível identificar se uma pessoa vive num ou outro dos referidos ambientes. Basta para isso  estar atento à linguagem, ao modo de vestir, ao tom de voz, entre outros referenciais.

A maneira de ver o mundo e de o sentir variam conforme a geografia da área que se habita. Um pescador tende a ver o mundo como sendo mais agressivo que o agricultor. O primeiro tem de lutar contra os elementos da Natureza, enquanto o segundo aprendeu a esperar, após a sementeira, que o ciclo de vida da plantação aconteça.

Geograficamente e em traços largos, a freguesia de Maceira está protegida por floresta a norte, nascente e poente. A sul, abre-se a extenso vale para onde confluem linhas de água, mais ao longe tributárias do rio Lena.

Estes dois factores, a floresta e a terra fecundada pela água, determinaram as actividades económicas da população de Maceira, durante séculos.

É verdade que os romanos terão explorado as riquezas do subsolo, como se conclui pelas escórias de ferro e outros metais encontradas nesta região.

No entanto, só nos finais do século XIX e princípios do século XX se fez uma investigação metódica das jazidas de pedra calcária e marga, em Maceira. Tal deve-se ao pioneirismo do Prof. João Rodrigues de Sousa Ribeiro, o primeiro professor oficial nesta freguesia, conforme abaixo mencionado e também descrito na página Homenagem aos Professores.

A população de Maceira, embora respire ares industriais, nunca perdeu a sua ligação às actividades rurais. Mesmo os operários fabris, nas horas livres do seu trabalho nas fábricas, dedicavam-se à agricultura, onde encontravam apoio para a subsistência das suas famílias.

Esta é uma das razões que ajudam a entender o carácter pacífico da população de Maceira, não havendo história de qualquer greve do operariado, ao contrário do que se passou na vizinha freguesia da Marinha Grande.

Neste século XXI, as actividades económicas em Maceira são muito diversificadas, perdendo a indústria cimenteira o predomínio que teve durante mais de cinquenta anos.  

 

1. Artes e Ofícios

 

O ser humano tem necessidades básicas a que é preciso responder: alimentação, vestuário, habitação e construção de utensílios auxiliares de trabalho.

Uma das preocupações dos pais sempre foi a de  preparar e introduzir os seus filhos nas actividades económicas, explorando as suas habilidades e jeito para determinadas artes. Para isso, contactavam algum dos artesãos próximos para que aceitasse o filho e o instruísse na respectiva arte.

De modo geral, nas aldeias havia o padeiro, o ferreiro, o alfaiate, o pedreiro, o merceeiro, o serrador, o carpinteiro e cada um exercia a sua actividade ou ofício no respectivo local. Mas havia também os artistas ambulantes, que se deslocavam de aldeia em aldeia a oferecer os seus préstimos. Era o caso dos conserta-pratos, chapéus de chuva  e amoladores.

 

amoladorAmolador (Novembro de 2016), vestígio do passado e que persiste como ofício de família.
Este amolador deslocou-se da Boavista (Leiria) à freguesia de Maceira, avisando os interessados com o seu característico som 

 

Estes ofícios, com o advento da industrialização, deram lugar às fábricas e a força humana foi substituída por máquinas.  

 

2. Indústria do vidro

 

Em 1879 formou-se na freguesia de Maceira uma sociedade, a Empreza Fabril Maceirense, constituída por nomes conhecidos e outros não tanto, mas com um objectivo comum: promover o desenvolvimento pelo trabalho, distribuir a riqueza produzida e contribuir para a igualdade entre as classes sociais. O campo de aplicação destes pressupostos, pouco habituais na formação de sociedades dedicadas ao comércio ou indústria, era a produção de vidro.

Dessa sociedade fizeram parte Joaquim de Gomes Birne e João de Sousa Sonso, ambos proprietários do Arnal, José Ricardo Galo, oficial de vidraça da Marinha Grande e irmão de Ricardo Santos Galo, Augusto das Neves e Sousa, farmacêutico na Batalha, e, mais tarde, Joaquim de Sousa Rodrigues, da família Blintina e professor em Pataias (ver Homenagem aos Professores).

Em 1880, por óbito de José dos Santos Galo, reformula-se a sociedade e, em 1884, começa a figurar como sócio António Ribeiro da Silva e Sousa, residente em Lisboa, deixando de ser sócios Joaquim Gomes Birne e Joaquim de Sousa Rodrigues.

Por vicissitudes várias, entre as quais não terá sido estranha a concorrência de firmas no mesmo ramo de actividade, esta empresa fabril maceirense não teve êxito, perdurando apenas escassos dez anos. 

 

3. Indústria da pedra

                  Cal e cimentos

 

Como hoje a conhecemos, a freguesia de Maceira é fruto do empenhamento e esforço denodado de muitos.

A matéria prima, a mais utilizada e de que é rico o subsolo em Maceira, é a pedra. É curioso salientar que coincidiram no tempo as várias iniciativas no sentido da sua extracção e utilização: final do século XIX e inícios do século XX.

A menos vistosa foi a utilização da pedra para cal doméstica. Era de fabrico artesanal e apenas terá existido um forno na freguesia de Maceira. Situava-se no Casal da Fonte, perto da Fonte de Nossa Senhora da Graça, entre Cavalinhos e Pocariça.

Apenas foi possível comprová-lo por testemunhos orais, ouvidos a partir do proprietário do terreno onde existia o referido forno, o Senhor António Matias da Pocariça, mais conhecido por Ti Antóino ferreiro. Ainda se pode ver, no local, jazida de pedra ajustada àquele objectivo.

 

Jazida pedra - CalA jazida de pedra para cal situa-se na base dos pinheiros
À esquerda, fica a Fonte da Senhora da Graça

 

Jazida pedra - Cal 2Jazida de pedra para cal (pormenor)

 

Com o início da fabricação de cimentos em Maceira, é natural que o uso da cal como argamassa na construção de casas e muros tenha sido substituída por um material mais adequado e resistente.   

Sem menosprezar o contributo de muitos, seja permitido relevar a acção dos pioneiros da indústria cimenteira: João de Souza Rodrigues Ribeiro, João Henriques Teixeira Guedes e João Luiz de Souza (genro do irmão de João de Souza R. Ribeiro).

João de Souza Rodrigues Ribeiro foi o primeiro professor, com nomeação oficial, na escola primária de Maceira (meados do séc. XIX – ver pág. Regedores em Maceira e Homenagem aos Professores). Conforme refere o Senhor Cónego Pereira da Costa (ver nota 2 da página Linha Paterna) na sua Breve Memória da Egreja Parochial de Maceira, o Prof. Rodrigues Ribeiro já tinha começado a investigar e a explorar os jazigos de pedra calcárea, própria para a fabricação de cimentos, muito tempo antes de João H. T. Guedes.

João Henriques Teixeira Guedes, natural de Minde, estudou bem o tipo de pedra existente em Maceira, fazendo-se acompanhar de técnicos e, entre eles, de um engenheiro francês. Após análises laboratoriais em Lisboa e na Alemanha, de que recolheu as melhores informações, decidiu fundar uma empresa de cimentos no sítio da Gândara junto dos jazigos de pedra, em 1891. A sociedade Guedes & Lopes que formou com Frederico de Sequeira Lopes, residente em Lisboa, foi dissolvida, mas João Guedes não desistiu.

Mediante contrato de arrendamento, João Guedes montou na Gândara a sua «Fabrica de Cimentos de Maceira», ‘cimentos naturaes’ tipo Portland, cal-cimento e cal hidráulica.

Em 1893, pela necessidade de aumentar a produção pois os seus produtos haviam tido excelente aceitação no mercado, e para aproveitamento da energia hidráulica, mudou a sua empresa para a Quinta Paraíso, junto da Igreja Matriz.

Para isso, lavrou escritura de arrendamento da casa de habitação, lagar (vinho e azeite), moinhos, azenha e terrenos anexos, aos seus proprietários Augusto Pereira da Costa e esposa, Filippa Marcia Césara Marcelly Pereira da Costa, provavelmente familiares do Senhor Cónego Pereira da Costa.

 

Ruínas do antigo lagar e moinhos de cimento da «Fabrica de Cimentos de Maceira»: a azenha encontrava-se na parede lateral, ao fundo, por onde passava um forte caudal de água que, depois de atravessar a estrada, movia moinhos de cereal
(Anexo da Quinta Paraíso, também conhecida por Quinta do Cia)

 

O empresário J. Guedes publicou, em 1900, um fascículo editado na Typographia Guedes, sediada em Leiria e que fora propriedade do seu irmão Constantino (falecido em Dezembro de 1898 na Quinta Paraíso), sobre a Fábrica de Cimentos de Maceira, apresentando os seus produtos e fazendo um estudo comparativo destes com os cimentos franceses, ingleses, italianos e austríacos. A sua produção anual, ao tempo, era de três milhões de quilos (3.000 toneladas).

 

Reprodução da capa do opúsculo, com foto do autor, apresentando os produtos cimenteiros da Fabrica de Cimentos de Maceira, propriedade de João Henriques Teixeira Guedes

 

João Luiz de Souza, na sequência das investigações e exploração de jazigos de pedra pelo Prof. João Rodrigues Ribeiro, que era irmão do seu sogro e também professor, montou uma fábrica de cimentos na cave da sua casa, com moinhos movidos pela água da ribeira que por ali passava, não longe da Quinta do Paraíso (ver página Homenagem aos Professores).

O cimento utilizado na construção da capela de Santo António, da Costa de Baixo, foi produzido nesta fábrica de João Luiz de Souza, conforme o testemunho (Agosto de 2011) do Prof. José Ribeiro de Sousa que recorda as imagens que lhe ficaram das deslocações com o pai àquele local. Durante a sua infância, acompanhou o pai à primitiva fábrica de J. Luiz de Souza para transporte, em carroça de tracção animal, do cimento para a futura capela. «Lembro-me, diz o Prof. Ribeiro de Sousa, de ver uns moinhos ao fundo da cave a triturarem a pedra que caía em pó nos grandes recipientes que o recebiam, já feito cimento.»  Recorde-se que a iniciativa e despesas da construção deste local de culto, na Costa de Baixo, pertenceram ao tio do Prof. Ribeiro de Sousa (ver também página Homenagem aos Professores).

 

Capela S. António - CostaCapela de Santo António – Costa de Baixo
Na sua construção foi utilizado cimento produzido na fábrica de João Luiz de Souza 

 

Pelos anos quarenta do século XX, ainda se podiam ver as ruínas de fornos de pedra no início da actual estrada da Marinha Grande, após a rotunda das Mangas. Destes fornos, a pedra seria transportada para os referidos moinhos no Arnal. É credível que estes fornos pertencessem a João Luiz de Souza, uma vez que o Cón. Pereira da Costa menciona a Gândara como local de exploração de matéria prima e montagem de estruturas «em grande escalla» para a fábrica deste empresário, a quem chama «corajoso filho desta freguezia». Testemunhos orais de pessoas que viveram nesse tempo vão no mesmo sentido. Também o diário de António Domingues refere que «começou na Gandra, digo, nas Areias a trabalhar a fábrica do C. (compadre?) Juão Luis de Sousa no dia 7 de Nubembro de 1900». 

 

Foi na cave deste edifício, construído por João Luiz de Souza, que funcionou a empresa de cimentos por si fundada
(Hoje, o edifício pertence à Associação Cultural e Recreativa do Arnal)

 

Entre João Luiz de Souza e João Henriques Guedes parece ter sido formada uma sociedade cimenteira, fundindo as duas empresas inicialmente criadas por cada um dos intervenientes.

 

Joaõ Luiz de Souza

(Cortesia de suas netas, Dr.ª Maria João e Dr.ª Maria Fernanda Martins)

 

Não foi brilhante o evoluir desta sociedade. Em Junho de 1920, a empresa foi vendida a Henrique Sommer que não conseguiu honrar até ao fim os seus compromissos, por ter surgido a grande crise económica de 1929. Ao ser confrontado pelos antigos empresários e donos da firma, Sommer terá respondido: «É a pouca sorte!» Parece ter sido esta a origem do nome pelo qual esta empresa começou a ser conhecida e nomeada pelo povo – ‘Fábrica da Pouca-Sorte’ ou simplesmente ‘Pouca-Sorte’, mais tarde adquirida por J. Alvarez.

Teixeira Guedes viveu os últimos anos da sua vida em Lisboa, com a esposa Carolina Adelaide, onde faleceu na Rua Palmira da freguesia dos Anjos, conforme se pode verificar pelo registo de óbito que em nota se transcreve. 〈6〉 

J. Alvarez conseguiu, com a sua administração, dar vida nova à empresa Cimentos de Maceira, diversificando os seus produtos. Pode afirmar-se que esta empresa conheceu mesmo algum florescimento até finais do século XX, data em que foi adquirida pelo grupo Secil, tal como a Empresa Cimentos Liz, como a seguir vai descrever-se.

 

Nos finais da segunda década do século XX, pela fama da qualidade dos jazigos marno-calcáreos de Maceira, uma equipa de engenheiros alemães, sob a orientação do Eng. José Osório da Rocha e Melo e do empresário Henrique Araújo Sommer, na sequência de emissários enviados alguns anos antes para observar os referidos jazigos de pedra, confirmou não só a qualidade das matérias-primas como a enorme quantidade das mesmas. Foram os primeiros passos da florescente Empresa de Cimentos Liz, liderada depois pelo Eng. António Sommer Champalimaud, sobrinho do fundador e empresário Henrique Sommer. Após a nacionalização da empresa em 1975, ficou a ser conhecida por Cimpor e, actualmente, pertence ao grupo Secil.

 

henrique-sommerHenrique Sommer

 

ecl-casa-da-direccaoecl-casa-direccao-sulecl-casa-direccao-nascCasa da Direcção (1920) – Vista antiga (1.ª), fachada principal com placa alusiva (2.ª) e vista do nascente (3.ª)
Ao fundo: moinho onde primitivamente era moída a pedra para cimento (testemunhos orais)

 

A Empresa de Cimentos Liz, na concepção dos seus fundadores e organização da sua estrutura, bem como nas diversas componentes da sua evolução, exerceu grande influência na comunidade de Maceira.

Em contraposição à Fábrica da Pouca Sorte, a nova empresa de Cimentos Liz era conhecida como a «Empresa» ou a «Fábrica», de que Henrique Sommer e o Eng. Rocha e Melo se tornaram figuras míticas. Ser operário na Cimentos Liz era o grande sonho de muitos maceirenses, pelo estatuto social que isso implicava.

Ao contrário do que aconteceu na Marinha Grande, não houve greves em Maceira. Tal deve-se ao estilo pacífico e dialogante da maioria do povo, mas também às condições privilegiadas dos operários, sobretudo os da Empresa Cimentos Liz. Não eram apenas os ordenados, superiores à maioria dos praticados por outras firmas, mas o sistema de protecção e promoção cultural, desportiva, sanitária e até religiosa, envolventes, que distinguiam esta empresa cimenteira.

 

 

DSCF3757Casa do Pessoal da ECL
Atrás: à esquerda, o Parque Desportivo; à direita, vêem-se as chaminés da Fábrica

 

Agostinho de Campos, professor universitário e político português que faleceu em 1944, chamou a essa estrutura empresarial em Maceira «o arrabalde da utopia».

O grande sonhador utópico foi Henrique Sommer, que soube rodear-se de homens que integraram o seu espírito empreendedor e eram possuidores de elevada capacidade científica e técnica, como era o Eng. Rocha e Mello.

 

ecl-eng-rocha-e-mello-4Eng. José Osório da Rocha e Mello
(Cortesia do Arquivo Histórico Fábrica de Cimentos Liz – Secil)

 

A Empresa era concebida como família disciplinada, em que o centro não era o lucro financeiro, mas a valorização pessoal de cada trabalhador, cujas necessidades fundamentais estavam salvaguardadas. Consequentemente, os operários davam também o melhor de si, para que a empresa fosse próspera.

Foi nesta empresa cimenteira que se formou a primeira Caixa de Previdência, depois replicada em outras empresas e precursora da concretização do futuro sistema de Segurança Social. As condições oferecidas por aquela Caixa eram, de longe, melhores do que qualquer outro sistema social posteriormente implantado no país.

Para que os trabalhadores provenientes de outras regiões pudessem ter habitação condigna, foram construídos Bairros: o mais próximo da Fábrica era reservado para os profissionais diferenciados (engenheiros, médicos, enfermeiros, capelão, professores e empregados de escritório).

Outros dois bairros foram construídos para operários indiferenciados, um na Pocariça e outro em Maceirinha. Os moradores destas residências tinham incluídas na sua renda simbólica as despesas com água e luz eléctrica, fornecidas pela Empresa.    

 

DSCF3840Bairro da ECL (ao fundo, as chaminés da empresa)
À esquerda, a Rua Dr. Carlos Pontes Leça  

 

ecl-capela-2-1930Capela da ECL (1930)

 

DSCF3844Ao fundo, a Capela (restaurada e ampliada – 1958) 
À esquerda, moradias do Bairro (residência de enfermeiras parteiras) 
À direita, o restaurante

 

A Casa do Pessoal era uma instituição sediada no edifício com o mesmo nome. Constituía verdadeiro centro de animação social e cultural, regido por órgãos directivos eleitos pelos sócios, cujo Presidente era sempre figura de proa na ECL. Durante muitos anos exerceu estas funções o próprio Eng. Director da empresa, o Eng. Rocha e Mello.

Era na Casa do Pessoal que se programavam as múltiplas actividades que dependiam desta instituição: sessões de cinema (infantil e para adultos), de teatro e dança, concursos de poesia e prosa, actividades desportivas (futebol, hóquei em patins, hipismo, atletismo, tiro aos pratos, pombos-correio, xadrez, entre outras modalidades, participando em campeonatos a nível nacional e ganhando distinções de mérito).

O edifício da Casa do Pessoal dispunha de largo salão para sessões de cinema e teatro, biblioteca, sala de leitura, sala de jogos e botequim.  

 

ECL Casa PessoalCasa do Pessoal da ECL (vista parcial)

 

ECL Int. Casa PessoalSala de cinema e teatro da Casa do Pessoal da ECL
(Cortesia da Senhora Dr.ª Filomena Coelho) 

 

ecl-sessao-de-teatroSessão de teatro na sala da Casa do Pessoal da ECL
(Provável encenação de O tio Rico de Ramada Curto)
(Como curiosidade, repare-se na cabeça que se encontra na frente da cena, em primeiro plano: era o chamado ponto, isto é, uma pessoa que ia lendo, e sussurrando baixinho estava sempre presente para ajudar qualquer falha de memória dos actores; habitualmente, para evitar que o público se apercebesse da presença do ponto, havia uma caixa por detrás da cabeça, escondendo-a) 
(Cortesia do Arquivo Histórico Fábrica Maceira-Liz – Secil) 

 

Também da gestão da Casa do Pessoal dependiam a Banda Filarmónica, a Corporação de Bombeiros, o grupo da Legião Portuguesa e dos Lusitos (versão infantil dos Legionários), além do restaurante onde eram servidas refeições aos funcionários que o desejassem.

Os operários, em geral, traziam as suas refeições de casa por lhes ficarem mais baratas do que as servidas no restaurante. Tomavam-nas num refeitório dentro da fábrica. Nele, havia um painel de azulejos com tema alusivo, a criar ambiente num espaço de convívio e de reconstituição de forças. Com posterior remodelação de espaços, o referido painel desapareceu ou foi destruído.

Mas havia também o Restaurante onde eram confeccionados os alimentos segundo as mais modernas técnicas no sector, sob a chefia de pessoa credenciada. Apenas alguns empregados da fábrica, com vencimento acima da média, poderiam frequentar, por hábito, este modelo de refeição.   

 

ECL Filarmonica 2Banda Filarmónica da ECL (ca. 1950)

 (Cortesia do Sr. Elísio Coelho, esposa e filhas) 

 

ECL Corp. bomb.Corporação de Bombeiros (ca. 1982)
Comandante da Corporação: Senhor José de Matos Rosa 
(Cortesia do Sr. Elísio Coelho, esposa e filhas)

 

ecl-bombeiros-2Corporação de Bombeiros da ECL (1982)
Ao centro, o Eng. Director Fialho Costa e à sua direita o Comandante (sem farda)
O ano de 1982 corresponde à extinção desta unidade, para poder ser instituída a Corporação dos Bombeiros Voluntários de Maceira
Os elementos sem farda viriam a tomar funções relevantes na nova Corporação
(Cortesia do Comandante, Senhor José Matos Rosa, sua esposa D. Maria Amélia e filha D. Maria do Rosário) 

 

 ECL LusitosAlunos da Escola Primária da ECL
Lusitos (versão infantil da Legião Portuguesa)
(Cortesia da Senhora Dr.ª Filomena Coelho)

 

ECL Restaurante  Restaurante da ECL
(Cortesia da Senhora Dr.ª Filomena Coelho)

 

Para que os operários pudessem adquirir bens alimentares ou outros produtos, com preços mais acessíveis que nas lojas congéneres no exterior, existia a Cantina (para bens alimentares) e a Drogaria. Estas duas entidades constituíam a Cooperativa de Consumo, integrada na Casa do Pessoal.

Também a educação dependia dos órgãos directivos da Casa do Pessoal. A formação dos mais novos mereceu particular empenhamento dos responsáveis pela Empresa de Cimentos Liz.

Foi pioneira na instituição de ciclo prévio à escola primária. Chamava-se «aula infantil», e nela ingressavam as crianças de cinco-seis anos. Durante um ano, aprendiam algumas regras fundamentais de convivência em grupo e da disciplina na aprendizagem escolar.

Seguia-se o ciclo dos quatro anos da instrução primária, como era de lei. Veio depois, a partir dos anos sessenta do século XX, o Ciclo Unificado da Telescola (ver Ensino em Maceira  e Homenagem aos Professores).

 

ECL Escola Fem. Post.Escola Primária (feminina) da ECL
(Cortesia da Senhora Dr.ª Filomena Coelho) 

 

ECL Escola Primária FEscola Primária da ECL (masculina)

 

Mas as preocupações de formação não se esgotavam na escola primária e ciclo preparatório. Também os jovens tinham o seu lugar de encontro e de formação profissional. Aí eram dados cursos que abriam perspectivas profissionais, quer aos rapazes, quer às raparigas. É de justiça recordar, neste contexto, a figura do capelão da Empresa, Padre Arnaldo, franciscano formado em Sociologia. 

 

ECL Casa RapazCasa do Rapaz da ECL

 

ECL Casa RaparigaCasa da Rapariga (transformada em garagem) 

 

Os jovens com dotes intelectuais e vontade de prosseguirem estudos, mas impedidos de o fazerem por falta de recursos económicos, podiam solicitar à Empresa um empréstimo monetário, sem juros, mas comprometendo-se a fazer a sua devolução faseada, uma vez terminado o curso académico.

 

O sector da saúde constituiu obra prioritária na mente dos empreendedores desta ‘utopia’ social, a começar pela higiene do pessoal da Empresa. Para isso, os operários e suas famílias dispunham de balneário, situado entre a Casa do Pessoal e o Restaurante.

Mas era no Posto Médico que se centravam os cuidados de saúde da população de Maceira e das freguesias vizinhas.     

 

ECL Posto Médico FECL Posto Médico FgPosto Médico da ECL, inaugurado a 3 de Maio de 1939

 

Este Centro de Saúde dispunha de Maternidade, Bloco Operatório, Bloco de Partos, Enfermarias para internamento, Farmácia, Consultórios, Salas de Pensos, Radiologia e até um Centro de Investigação com porquinhos da Índia.

Além de enfermeiros, havia dois médicos em exclusividade: o Dr. Bandeira (Luís Schreyer Pereira Bandeira), cirurgião estomatologista dos Hospitais Civis de Lisboa, era médico municipal na freguesia de Maceira, com residência no Arnal, e foi convidado para exercer funções no Posto Médico da ECL, o que iniciou em 1937 com o vencimento de 500$00. O outro médico era o Dr. Leça (Carlos Pontes Leça), pessoa muito popular e generosa, que entrou ao serviço da ECL em 1945 e a quem foi dedicada a Rua em frente da Casa do Pessoal do Bairro da Empresa.

 

junta-de-freguesia-inauguracao-sede-3-dr-bandeiraDr. Bandeira e sua esposa, D. Generosa

 

Antes destes dois médicos, prestaram serviço na empresa o Dr. José Maria Pereira Gens, o Dr. Américo Cortez Pinto, figura distinta no meio leiriense, e o Dr. Laborinho que exerceu funções também na Direcção da Casa do Pessoal. O Dr. Pereira Gens, natural da freguesia do Olival, concelho de Ourém, terminou o seu serviço na Empresa a 24 de Setembro de 1923, coincidindo com o nascimento da sua filha Helena. 

 

Dr. Pereira Gens

(Cortesia de sua filha e netos)

 

A este Posto de Saúde acorriam não apenas os operários e as pessoas ligadas à Empresa de Cimentos, que tinham naturalmente benefícios por essa razão, mas também a população em geral, de Maceira e de freguesias vizinhas, procurando aí alívio para os seus sofrimentos.

Se não conseguiam consulta médica, ao menos tinham na Farmácia os remédios que adquiriam e depois aplicavam, a conselho dos técnicos da mesma.

Até de Porto de Mós chegavam parturientes que preferiam ser acompanhadas na Maternidade deste Posto Médico pelas enfermeiras-parteiras (D. Maria, D. Clarinda e D. Gracinda). 

Longe vão os tempos em que Henrique Araújo de Sommer teve necessidade de penhorar os seus fatos para pagar o salário aos trabalhadores!… (Ver também página Homenagem aos Professores).

Com o falecimento de Henrique Sommer em Março de 1944 e a passagem da administração para António Champalimaud, iniciou-se a concretização de um outro projecto de empresa em que a dimensão social e humana foi perdendo a sua relevância. Por fim, com a nacionalização da Empresa em 1975, perdeu-se todo este conjunto de obras sociais – o «Arrabalde da Utopia», construído à luz de um modelo empresarial, em que o trabalhador era respeitado como ser humano e considerado a maior riqueza da comunidade empresarial que procura o lucro, naturalmente.

 

ecl-agost-campos-utopia-2Relato de Agostinho de Campos
(Arquivo Histórico Fábrica Maceira-Liz . Secil)

 

Este sonho de Utopia desmoronou e, hoje, pouco mais se vê que uma fábrica a produzir cimento. O dinamismo e a vida de uma comunidade empresarial perderam-se, a favor de uma visão predominantemente individualista.

Mantém-se, no entanto, sensibilidade cultural nos seus dirigentes actuais (2016): há o desejo de preservar a História deste empreendimento e de o tornar conhecido, abrindo os seus arquivos ao estudo «de caso».  

Merece efectivamente estudo sociológico esta experiência, talvez única, de uma empresa aberta à comunidade e fundada numa concepção de Humanismo que antagoniza os pressupostos meramente economicistas e contrasta com a visão marxista sobre o capitalismo.

 

Homenagem ao fundador da E. C. L., Henrique Sommer, no Parque da Memória 〈7〉
Autores: Arq. Narciso Costa e Escultor Anjos Teixeira
Textos de Américo Cortez-Pinto 
Note-se, à esquerda, a representação das actividades fabris; à direita, as actividades assistenciais e educativas
(Pode ampliar, clicando na foto)

 

 

ecl-descerramento-busto-eng-rocha-e-mello-2Descerramento do busto do Eng. Rocha e Mello no Museu do Cimento da ECL (Abril de 1991)
Em primeiro plano, os netos do homenageado (João que descerra, Isabel, Inês e Miguel) e a filha Maria do Rosário
(Cortesia do neto, Dr. Miguel Mello)
  (Pode ampliar sucessivamente, clicando na foto)

 

 

4. Cerâmica

 

Também este ramo da indústria mereceu o esforço de alguns empresários maceirenses. Existe referência a uma cerâmica no Vale Grande, entre Alcogulhe e Arnal, construída na segunda metade do século XVIII por iniciativa de um senhor com o nome de Irio ou Hírio.

Já no final do séc. XIX e nas primeiras décadas do século XX, coincidentes com o período de industrialização na freguesia de Maceira, a primeira cerâmica funcionou no Arnal, no espaço onde hoje (2016)  se encontra o Café Costa. Nasceu por iniciativa e pioneirismo de João Luiz de Souza (ver também a nota integrada na apresentação da sua neta, a Prof.ª Margarida Martins, que ensinou na Escola da Pocariça – Homenagem aos Professores).

A existência de um ribeiro no local, com a recolha de águas provenientes da encosta sul do Sobral, então bastante rica em nascentes, constituiu factor decisivo para a realização desse projecto industrial, pelo aproveitamento da força motriz das águas.

Em 1920, a Empresa de Cimentos Liz estava a dar os primeiros passos na sua construção, exigindo para tal grande quantidade de materiais cerâmicos. Em vez de os comprarem a outras empresas, os responsáveis preferiram abrir uma cerâmica em Maceirinha, onde, segundo cálculos oficiosos, foram produzidos 8 milhões de tijolos e meio milhão de telhas, necessários para a edificação da fábrica de cimentos Liz. 

Outras cerâmicas foram, entretanto, construídas nas diversas aldeias: Pocariça (cerâmica Salgueiro), Maceirinha (havia cinco, entre elas a de António Francisco Ribeiro e a de Manuel Pereira), Vale da Gunha (cerâmica Gabriel) e Alcogulhe (houve duas, contíguas no espaço): cerâmica Manuel Ascenso e cerâmica de Alcogulhe, actualmente Prélis. (É também conhecida  por Cerâmica do Zé das Pedras, devido ao nome da terra de proveniência do pai de José da Silva, a qual se chamava Pedras).

Esta última, e a mais conhecida na freguesia, tem dado trabalho a várias gerações de maceirenses, homens e mulheres. A ela estão ligadas duas pessoas: José da Silva e Joaquim da Silva Monteiro.

José da Silva era natural de Alcogulhe de Baixo. Cedo emigrou para a Galiza e, depois, para a Argentina. Ao regressar de Buenos Aires, iniciou a fabricação de tijolo no chamado Forno Velho, nos Cavalinhos, cerca de 1925. Mas não deixou de exercer outras actividades, como afinador de máquinas na serração de madeiras pertencente a José Febra, da Pocariça (ver mais abaixo, n.º 5 – Serração de madeira). 

 

Cerâmica Alcogulhe - AntigaJosé da Silva (1.º à esquerda) em S. Pedro de Muel, com a neta ao lado
(Cortesia da Senhora D. Maria de Lourdes Monteiro, neta de José da Silva)

 

Joaquim da Silva Monteiro, natural da Costa Baixo, dedicou-se ao transporte de materiais numa camioneta que adquiriu. Sofreu um acidente com incêndio de material inflamável (ácido sulfúrico) que transportava, e, para salvar o seu ajudante, sofreu graves queimaduras, sobretudo no rosto.

Foi assistido em Lisboa, no Hospital de Santa Maria. Dado como morto pela gravidade das queimaduras e intoxicação de fumos, foi removido para a morgue.

Acontece que estava a decorrer, na altura, um Congresso Internacional sobre queimados, em que participavam médicos americanos. Desejando contacto directo com queimados presentes no Hospital, quiseram igualmente ver o queimado ‘falecido’, que, afinal, encontraram ainda com sinais de vida. Mas os sinais das queimaduras perduraram (ver foto seguinte). 

Joaquim da Silva Monteiro abandonou a actividade de transportes e, em colaboração com o sogro, fundou uma nova cerâmica que substituiu o Forno Velho.

 

Cerâmica Alcogulhe NovaJoaquim da Silva Monteiro
(Cortesia de sua filha, D. Lourdes Monteiro)

 

Ergueu-a  num local povoado de eucaliptos (de que se conserva um dos exemplares desse tempo), em Alcogulhe de Cima.

 

Cerâmica AlcogulheÁrvore restante do antigo eucaliptal existente nesta área

 

Esta área é rica em produtos argilosos de boa qualidade, a matéria prima essencial da cerâmica.

Apesar de contrariedades e vicissitudes várias, após profundas transformações exigidas pelas novas técnicas da industrialização, esta unidade fabril ainda hoje (2016) se mantém activa. 

 

Cerâmica Alcogulhe 2Actuais instalações da Cerâmica de Alcogulhe (Prélis)

 

5. Panificação

 

Até meados do século XX, muitas famílias de Maceira possuíam o seu forno de cozer pão. Por um lado, fazia-se o aproveitamento dos cereais cultivados pelos próprios e, pelo outro, não havia dinheiro suficiente para adquirir nas padarias todo o pão necessário ao sustento da família, nem as padarias dispunham de farinha para o conseguirem.

Em tempos de carestia, como o foram os períodos de guerra, este sector económico sempre foi muito sensível: dava lugar ao contrabando e a outros actos de desvio mas cujo resultado final sempre foi a penalização dos mais fracos.

Acontecia nesses tempos, desde a madrugada e mesmo no mais rigoroso da invernia, as pessoas formarem filas à porta da padaria na esperança de conseguirem algum pão para o sustento da família. Viviam-se tempos de racionamento dos bens alimentares que, apesar de serem racionados e de ser muito limitado o dinheiro disponível, não chegavam para todos.

Nos finais da década de quarenta do século XX, já o padeiro se deslocava às aldeias para vender o pão, utilizando primeiro a bicicleta de pedais e, mais tarde, a motorizada e a furgoneta.

Alguns dos distribuidores tornaram-se figuras típicas na aldeia, com o seu ritual próprio na venda do pão. As vias por onde passavam eram esburacadas pela chuva e erosão do tempo. Na sua deslocação, era frequente as rodas do veículo caírem sobre os fundos buracos da estrada batida ou simples caminho.

Se era possível evitar um ou outro dos buracos, era impossível evitá-los todos. Assim, havia miúdos que esperavam em lugares estratégicos a passagem de algum distribuidor mais estouvado, na mira de algum dos pães se desprender do seirão e poderem fazer o seu festim! Era o caso do jovem conhecido por “Carrancho”, da padaria do Arnal, muito desastrado na condução da sua moto e que pelo caminho perdia metade da carga…

Para memória, enumeram-se as principais padarias de Maceira, desde as mais antigas (século XX):

Padaria Joaquim Ignacio (Gândara)

Joaquim Ignacio viveu no lugar da Pocariça, e esteve em campo de batalha na I Grande Guerra, tal como outros seus conterrâneos. (Ver Enquadramento Histórico)

 

1.ª Grande Guerra Soldados Maceira 2Homenagem aos soldados de Maceira na 1.ª Grande Guerra, onde figura o nome de Joaquim Ignacio
(Cortesia do Eng. Herlander Francisco)

 

Transferiu-se para a Gândara, onde fundou um verdadeiro centro comercial, estrategicamente situado em frente da entrada principal da Empresa de Cimentos Liz. Ligado ao Grémio da Lavoura de Leiria, tinha lojas, café, restaurante, etc. Estávamos na terceira década do século XX. 

A padaria foi construída a duzentos metros abaixo deste centro comercial, na direcção nascente. Habitualmente, era o filho (Joaquim Inácio Júnior) quem orientava esta actividade. A seu respeito conta-se que, certa madrugada, quando se preparava para entrar no seu estabelecimento reparou que já estava à frente da porta um miúdo com os seus oito-nove anos.

Que estás aqui a fazer, a esta hora da madrugada, com tanto frio?

Os meus pais, ontem à noite, pediram-me para vir cedo e ganhar vez para não faltar pão em casa.

De facto, ao serão, e porque nem o pai nem a mãe podiam ir no dia seguinte à padaria, pediram ao seu filho mais velho para o fazer. Para isso, recomendaram-lhe para não adormecer e ir cedinho buscar o pão. A certa altura da noite, acordou e pareceu-lhe que era hora de partir. 

Estávamos nos anos da II Grande Guerra Mundial, em que o pão era racionado e, mesmo assim, não chegava para todos. Por isso, era necessário chegar cedo.

Ó rapaz, vem para dentro e não apanhes frio! disse Joaquim Inácio Júnior.

Mas não se contentou em acolher aquela criança: deu-lhe também pão quentinho para matar a fome e compensá-lo da noite que não dormiu!

 

joaquim-inacio-2

Joaquim Inácio Júnior
(Cortesia de sua filha Teresa) 

 

joaquim-inacio-e-filha
Joaquim Inácio Júnior e filha
(Cortesia de sua filha Teresa) 

 

Padaria Santos (Telheiro)

No princípio dos anos quarenta do século XX, o Senhor Manuel da Silva Santos teve uma experiência negativa com uma das padarias então existentes, pelo que decidiu abrir ele próprio uma padaria na sua aldeia.

 

Manuel S. SantosManuel da Silva Santos, com o seu neto Olímpio
(Cortesia de seu filho Abel e esposa)  

 

Conseguiu vencer contratempos administrativos, e rapidamente iniciou a fabricação do precioso alimento. Tinha de ir a Leiria, como qualquer outro fabricante de pão, para transporte das farinhas: ia de bicicleta para chegar à cidade e tratar da compra das matérias-primas, de tal maneira que, quando chegasse o carro de bois conduzido pelo seu filho Abel, não houvesse perda de tempo e, após a carga, logo regressasse a casa.

Era uma viagem difícil. Tinham de sair de casa ainda de noite e o caminho era acidentado. Como se não bastasse, já na cidade, a calçada de pedra provocava muitas vezes a queda dos animais que resvalavam pela polidez do pavimento.

Os anos foram passando e o jovem Abel teve de substituir nas lides da padaria o irmão Ernesto, que sofrera acidente de bicicleta. Ganhou-lhe o jeito e o gosto, ficando depois responsável pela padaria que se manteve activa até 1988, data em que encerrou definitivamente.   

 

Padaria Santos -Senhor Abel da Silva Santos e esposa (Julho/2016)
Atrás: chaminé da padaria Santos
(Cortesia dos próprios) 

 

O Senhor Manuel da Silva Santos foi pessoa influente junto de entidades civis e militares e a ele se devem benefícios para a comunidade como a abertura da estrada Maceira-Marinha Grande. O facto de esta ainda não existir, segundo testemunhos fidedignos, motivou o adiamento da construção do edifício escolar de A-dos Pretos  com aplicação de verbas a ele destinadas para a construção da Escola Nova da Pocariça e, depois, do primeiro estádio Magalhães Pessoa, em Leiria.  

 

Padaria do Arnal (de que a figura do jovem “Carrancho” foi emblemática). Mais tarde, esta padaria foi explorada durante vários anos por outros inquilinos deste edifício, que era propriedade do Senhor José João.

Padaria Obidense (Gândara)

O seu fundador foi Manuel Maria dos Santos, natural de Óbidos onde nasceu a 6 de Maio de 1908. Trabalhou inicialmente numa empresa familiar de panificação, de que se separou para abrir em Maceira uma unidade industrial do mesmo ramo. Alugou em 1935 um pequeno prédio na Gândara, próxima do antigo mercado e que dava para a Estrada de Leiria, mais tarde utilizado como talho. Construiu posteriormente, em 1946, o edifício com desenho de seu genro, José de Matos Rosa.

 

manuel-maria-santos-2Manuel Maria dos Santos
(Cortesia de sua filha D. Maria Amélia, genro e neta D. Maria do Rosário) 

 

padaria-obidense-orig

Padaria Obidense (1946)
  (Cortesia da Senhora D. Maria Amélia, seu marido Senhor José de Matos Rosa e filha D. Maria do Rosário) 

 

O pão fabricado nesta padaria era vendido não só para a freguesia de Maceira, como também para as freguesias vizinhas, onde foram abertos postos de venda.

 

Padaria ObidenseEdifício onde funcionou a Padaria Obidense (2016)
(O nome ainda se mantém, mas com tinta sobreposta)

 

Padaria Febra (Pocariça)

 

padaria-febra-1Padaria Febra
(Cortesia de sua filha, Rosa, e genro, Dr. Arnaldo Febra)

 

Padaria FebraAntónio Francisco Febra, fundador da Padaria com o seu apelido
(Cortesia de sua filha Rosa e genro Dr. Arnaldo Febra)

 

– Padaria Guerra, do Senhor Agostinho Paulo Guerra (Porto do Carro)   

 

Os tempos e as técnicas de produção mudaram. Mantêm-se, no entanto, algumas unidades de panificação em Maceira, concretamente no lugar de Campos, A-do-Barbas e Porto do Carro, as quais dispõem de postos de revenda em algumas aldeias da freguesia.

 

6. Serração de madeira

 

A freguesia de Maceira estava rodeada por floresta, sobretudo carvalho e pinheiro, havendo também o eucalipto que não era predominante. A população necessitava de madeira que, depois de serrada, era submetida a manufatura e posterior aproveitamento para satisfazer um sem número de necessidades.

Neste contexto se insere a figura dos negociantes de madeira ou madeireiros. Eram pessoas bem conhecidas da população e, de modo geral, respeitadas. Sabiam como ninguém onde encontrar madeira de boa qualidade e procuravam os proprietários com quem ajustavam o preço e as condições do negócio.

São de recordar os nomes de Álvaro dos Santos do Vale Salgueiro (em 1939 era Presidente da Junta de Freguesia), João Sabino da Gândara (teve uma mercearia em Vale Salgueiro), Manuel Ferreira e José de Sousa (também proprietário de uma serração) do Arnal, Manuel Ferreira Heleno, António Ferreira Heleno e Joaquim Ferreira de A-dos-Pretos, João Pedro de Faria da Pocariça, e Manuel Jacinto de Maceirinha.

Na primeira fase da laboração, a figura central era o serrador que, em equipa de dois elementos, se deslocava à floresta. Cortada a árvore, o tronco era dividido e as partes sucessivamente colocadas sobre a burra ou tesoura. Com uma linha bem esticada sobre o madeiro e previamente ensopada em tinta de almagra, eram marcados os limites da futura tábua que serviam de guia para a colocação da serra.  

 

15 013 (5) JPGEquipa de serradores, em painel de azulejo
(Museu de família)

 

Os tempos mudaram e a serração de madeiras deixou de ser artesanal, isto é, feita no ‘domicílio’ da floresta, para se realizar em serrações mecanizadas.

O primeiro instrumento mecânico utilizado em Maceira para a serração foi a locomotiva de comboio. Quando se considerava incapaz de satisfazer as exigências próprias da ferrovia, a locomotiva era colocada em estaleiro e eventualmente comprada por algum ‘curioso’ da mecânica e reaproveitada para outros fins.

Houve em Maceira duas serrações movidas por estas máquinas a vapor de água, aquecida por lenha ou carvão. Uma delas, na parte nordeste do Arnal, era propriedade de Vergílio de Sousa, mais conhecido por ‘homem dos seis dedos’ (tinha um polegar acrescido por outro mais pequeno numa das mãos, a conhecida polidactilia). Era filho do empresário João Luiz de Sousa (ver acima n.º 2 e 3) e viu-se mais tarde forçado a vender os seus bens para pagar fiança que fizera a favor de pessoa incumpridora. Na última fase da vida dedicou-se ao transporte de pessoas no seu carro de aluguer. Vivia no edifício que é hoje propriedade da Sede do Clube do Arnal (ACRA ou Associação Cultural e Recreativa do Arnal).  

A outra serração movida por locomotiva desactivada dos Caminhos de Ferro pertenceu a José Febra, da Pocariça.

Mais tarde, nos meados do século XX com a distribuição generalizada da energia eléctrica (anteriormente reservada às cimenteiras), outras serrações nasceram em Maceira:

– Serração José de Sousa (conhecido por “Zé Padeiro”, pelo facto de o seu pai exercer esta profissão no Vale Salgueiro – ver Junta de Freguesia). Esta serração ficava próxima da de Vergílio de Sousa, de que se falou acima. 

– Também no Arnal existiu a serração Pescada, que depois passou para o Moinho de Vento (Gândara) e, mais tarde, para Maceirinha onde terminou a sua actividade.

– Serração António Ferreira (Vale da Gunha), hoje explorada pelo seu filho Lúcio.

– Serração José Manuel (A-dos-Pretos), hoje substituída por Fábrica de Móveis

– Serração de Maceirinha, já desactivada por cessação de actividades da firma Pescada 

 

7. Indústria de resinas

 

Havia duas empresas de resina, no lugar do Porto do Carro, fundadas por dois irmãos: Francisco Inácio e Manuel Inácio Pimpão.

No Anuário Comercial de 1939 faz-se referência à fábrica de resinas pertencente a António Francisco Ribeiro, de Maceirinha.  

Recebiam a resina colhida nos pinhais de Maceira e das freguesias vizinhas. Em seguida, procediam à sua transformação inicial, por destilação, obtendo pez louro ou colofónia e aguarrás ou essência de terebentina.

Estes produtos eram depois enviados para outras empresas que procediam à segunda transformação dos mesmos, para obtenção de inúmeras substâncias utilizadas na indústria farmacêutica, na cosmética, na indústria automóvel, tintas, perfumes…

A primeira figura desta cadeia era o resineiro. Tinha um trabalho sazonal, de Março a Novembro. No início da Primavera, percorria os pinhais para descasque das árvores e posterior abertura da ferida (bica) por onde escorria lentamente a resina para um púcaro, de cerâmica ou de plástico. Uma vez cheio, passava de novo o resineiro para a recolha e posterior envio para a fábrica transformadora de resinas.

No dia um de Novembro, ‘pelos Santos’ e já no final da época, o resineiro contactava os proprietários dos pinhais para lhes entregar o pagamento das bicas e obter consentimento para exploração da resina no ano seguinte.

Este ritual perdeu-se praticamente em Maceira, desde que as fábricas transformadoras de resina no Porto do Carro conheceram uma reestruturação.

Com o falecimento do Francisco Inácio, a propriedade desta empresa passou para a filha e seu genro, o Senhor José Almeida Santo. Também este faleceu, subitamente e com apenas cinquenta anos incompletos, em 1973. No entanto, já antes do seu falecimento tinha cessado a actividade da empresa. Hoje, apenas se podem ver as ruínas do que foi o edifício onde funcionou a fábrica.

 

Resina J. S.Ruínas da fábrica de resina de Francisco Inácio, no Porto do Carro – Maceira (Maio/2016)

 

José Almeida SantoJosé Almeida Santo (natural de Montes – Alpedriz)
Cortesia de sua filha, Josefina Santo

 

Por sua vez, a firma de Manuel Inácio Pimpão encontra-se activa e é gerida por um dos seus netos. Recebe a matéria-prima dos pinhais restantes, de Maceira e das freguesias vizinhas (Juncal e Calvaria), mas também do Brasil chegam grandes quantidades de resina que são processadas nesta empresa de transformação.

 

Resina M. P.Fábrica de resina de Manuel Inácio Pimpão (herdeiros) (Maio/2016)

 

No espaço ocupado pelos pinhais sobreviventes, vêem-se com frequência púcaros pelo chão, retirados das árvores pelos seus proprietários porque não receberam a justa paga anual ‘pelos Santos’… É o sinal do decréscimo da produção de resina nestas paragens! 

 

ResinaOcaso da exploração da resina
Foto de pinheiros a norte de Maceira, entre Pocariça e Marinha Grande (22.2.2016)

 

 

8. Lagares de azeite

 

Ao contrário dos lagares de vinho, que eram frequentes em Maceira, os lagares de azeite exigiam outras técnicas que os tornavam menos acessíveis à maioria dos produtores de azeitona. Maceira foi povoada de olivais que, em anos de boa produção, compensavam o esforço e garantiam refeições enriquecidas com o precioso óleo.

Para triturar a azeitona usava-se a força animal para mover as mós. O burro ou a vaca, munidos de canga, giravam à volta do tanque onde se vertia a azeitona e rodavam as mós. Assim era o lagar da «Pexina», na Pocariça.

Usava-se também a força hidráulica, canalizando correntes de água na direcção pretendida, como foi o caso do lagar que existiu na Quinta do Paraíso, com maquinaria que também foi usada para moer a pedra de cimento, conforme atrás se descreveu. 

A força hidráulica e a dos animais de tiro foi depois substituída, em parte, pela força mecânica, como acontecera com as serrações de madeira. Aliás, o único lagar de azeite em Maceira movido por locomotiva a vapor, já desactivada nos Caminhos de Ferro e agora reaproveitada para outras actividades, foi o de José Febra da Pocariça, que utilizava a mesma fonte de energia, para serração de madeiras e lagar de vinho.

Cerca de 1830, na Quinta do Moinho (então chamada Ribeira dos Gaios), já na altura funcionavam, movidos por força hidráulica, um moinho para moer cereais e um lagar de azeite, comprados por João Monteiro Cerejo Júnior e sua esposa Joaquina Pereira nos finais do século XIX. Por morte de João Monteiro Cerejo Júnior em 1919, o lagar foi herdado pela filha, Francisca Pereira, que veio a casar com Joaquim Frazão. Estes equipamentos funcionaram até 1949, data em que os seus proprietários decidiram construir de raiz, no Porto do Carro, novo lagar e moagem de cereais, movidos agora por força mecânica e não já hidráulica, dotados com os equipamentos mais modernos e as técnicas mais avançadas então disponíveis, cumprindo todas as exigências legais da época.

Estas unidades industriais deixaram de funcionar nos primeiros anos do século XXI, mas mantêm-se cuidados e são propriedade do neto materno dos seus fundadores, o Prof. Doutor Carlos José Pereira da Silva Santos, médico especialista de Saúde Pública e neto paterno de Manuel da Silva Santos, que foi fundador e proprietário da padaria com o mesmo nome (ver atrás n.º 4 – Panificação).〈8〉

Também no Porto do Carro existiu o Lagar Blintina (Valentina, da família Rodrigues do Arnal – ver Homenagem aos Professores) de Agostinho de Sousa Rodrigues  e de José de Sousa Rodrigues.

No Arnal funcionou o lagar de Emílio de Sousa e na Costa de Baixo o de João Ribeiro.  

 

9. Indústria de moldes

 

Esta continua a ser uma das actividades económicas  relevantes em Maceira. As oficinas de moldes na Marinha Grande ocuparam mão de obra de muitos jovens maceirenses que aí procuraram trabalho. Mas, enquanto aprendiam a arte, a sua mente arquitetava projectos de autonomia.

Assim, quando se sentiam preparados e já dominavam a arte, fundaram as suas próprias oficinas, geralmente associados em grupo: as chamadas sociedades.

Com esta nova estrutura laboral, em que os trabalhadores também eram patrões, subverteu-se a tão renomada lei marxista da divisão de classes: por um lado, os trabalhadores ou proletários, e, pelo outro, os exploradores da mão de obra, detentores do capital e dos meios de produção (instrumentos de trabalho), isto é, os patrões. Nestas oficinas de moldes, os trabalhadores tornaram-se patrões!… 

Já nos finais do século XX, a freguesia de Maceira via-se povoada de oficinas  de moldes ou dedicadas a actividades com estes relacionadas, como é o caso de oficinas de projectistas.

Veio a crise da concorrência, no dealbar do século XXI, com mão de obra mais barata em países não desenvolvidos. No entanto, a qualidade dos produtos fabricados nestas oficinas sempre foi reconhecida, o que impediu em grande parte o seu encerramento.  

 

10. Comércio

 

Em Maceira, pelo menos nas aldeias mais populosas, havia uma ou duas lojas onde se podiam comprar objectos comuns e de necessidade directa.

As donas de casa aí podiam adquirir panos, vassouras, sabão e também cereais ou alguns géneros alimentícios.

Por sua vez, as crianças em idade escolar a elas se dirigiam quando precisavam de lápis, cadernos, ou de ardósia e ponteiros.

Os homens, por motivos de convívio ou para «afogar tristezas», aí se reuniam para beber ‘um copo’ ou aquecer o espírito com ‘um dedal de bagaço’, enquanto trocavam «dois dedos de conversa»! É que a loja de comércio também albergava uma taberna…

A partir de meados do século XX, houve alguma especialização no comércio, como foi o caso de pequenos talhos para comercialização de carnes, lojas para adubos ou para ferragens.  

Estas lojas populares foram desaparecendo nos finais do mesmo século XX, substituídas por médias ou grandes superfícies comerciais, quer na própria freguesia de Maceira, quer em Leiria, uma vez que não existe o problema da distância, como o foi no passado. 

 

Fluxos migratórios em Maceira

 

a) Emigração

 

Os habitantes de Maceira, embora saudosos e muito ligados às suas raízes, sempre procuraram melhores condições de vida para as suas famílias. Quando o não conseguiam no espaço geográfico limitado, decidiam «tentar a sorte» noutras paragens.

Muitos factores o terão provocado, que não apenas os de ordem económica. Na altura  das Invasões Francesas, muitos maceirenses abandonaram a sua terra por razões de segurança, assim como por ocasião do regicídio em 1908 alguns naturais de Maceira, por idênticas razões, saíram do país e procuraram refúgio, por exemplo no Brasil. Assim aconteceu a José de Sousa Ferreira, nascido em 1889 no lugar de Valverde. Integrado no Regimento de Cavalaria do rei D. Carlos, emigrou em 1910 para o Brasil, onde veio a casar. Um dos seus filhos veio a casar com uma descendente do rei D. Afonso III de Portugal.

 

jose-sousa-ferreira-nobreRegisto de Baptismo de José de Sousa Ferreira

 

No entanto, a maioria das pessoas que deixaram Maceira fê-lo por necessidade económica. Por volta de 1930, com a grande depressão, muitos maceirenses procuraram no Brasil uma vida melhor e conseguiram amealhar algum dinheiro que depois lhes permitiu, com o regresso, ter outro desafogo e conforto, como foi o caso de Manoel Augusto Monteiro (ver Homenagem aos Professores).

Quando, ainda na década de quarenta do século XX e após a morte de Henrique Sommer, o seu sucessor e sobrinho António Champalimaud decidiu investir na indústria de cimentos quer em Angola, quer em Moçambique, muitos maceirenses emigraram para estas províncias ultramarinas onde se radicaram, ligados às empresas de Champalimaud.

Com a estagnação da economia portuguesa e as consequências da Segunda Grande-Guerra Mundial, além do início da guerra colonial em 1962, nos anos cinquenta e sessenta do mesmo século XX muitos habitantes de Maceira passaram as fronteiras, indo a maior parte de «assalto», isto é, sem documentos legais. Demandaram países europeus, sobretudo França, Alemanha e Luxemburgo.

Embora seja um novo tipo de emigração e agora já no século XXI, deve mencionar-se a saída de um número significativo de jovens universitários que, desejando fazer os seus cursos preferidos e não conseguindo vaga nas universidades portuguesas, demandam sobretudo Espanha, Inglaterra e República Checa. Concluído o seu curso, alguns optam por regressar às suas raízes.   

 

b) Imigração

 

Maceira foi também espaço atractivo para muitos que nela procuraram vida melhor. Até à primeira década do século XX, a imigração era rara e esporádica. Com a decisão de construir as fábricas de cimento, sobretudo a Empresa de Cimentos Liz, Maceira conheceu um fluxo imigratório relevante. Era necessária muita mão de obra, mesmo indiferenciada, para erguer as instalações de uma empresa cimenteira como a sonharam os seus promotores, Henrique Sommer e o Eng. Rocha e Mello.

Bastantes técnicos e alguns engenheiros alemães foram nesse tempo contratados, mas foi sobretudo a mão de obra indiferenciada que constituiu a grande porção dos assalariados que vieram para Maceira. Eram provenientes de freguesias limítrofes, mas também do norte e interior centro de Portugal. Segundo estudos feitos, apenas 40% dos trabalhadores da ECL eram naturais da freguesia de Maceira, sendo a maioria (60%) proveniente de outras áreas geográficas, do país e do estrangeiro.

O fluxo migratório em Maceira conheceu novo pico nas décadas de cinquenta-sessenta do século XX, que coincidiu por um lado com a saída de operários já especializados para o estrangeiro e pelo outro com a construção de novas linhas de produção cimenteira na ECL. 

 

ecl-linha-de-producaoForno giratório da linha de produção da Empresa de Cimentos Liz (ECL – 1940)

 

A integração destas pessoas em Maceira nem sempre foi pacífica. Entre as centenas de imigrados alguns havia com hábitos pouco sociáveis ou mesmo conflituosos. Por seu lado, os naturais de Maceira reagiam com atitudes de defesa. A própria linguagem exprimia reserva no relacionamento com essas pessoas. Embora diluídos, mantêm-se ainda termos como chartéu, xaveco, bimbo ou senhoreca como identificativos de pessoas oriundas de outros pontos do país. Se os primeiros transportam algum tom depreciativo, o último é referido ao mundo feminino e expressão de nível de vida superior aos naturais da freguesia.

O factor religioso contribuiu para superar alguns atritos iniciais e foi decisiva a influência do Engenheiro-Director da Empresa, pessoa de prática religiosa convicta e também ele imigrado – o Eng. Rocha e Mello. Na capela da ECL estavam presentes nos actos de culto quer operários ou outras pessoas naturais da freguesia, quer os de fora e também o primeiro responsável da empresa. Esta unidade de presença e de conformação espiritual aproximava todos os intervenientes. 

 

Comemoração dos 500 anos da fundação de Maceira, como Paróquia (1517-2017)

 

A Junta de Freguesia de Maceira iniciou em 2016 diligências, em colaboração com a Paróquia, no sentido de comemorar dignamente a ocorrência do 5.º centenário da fundação de Maceira como paróquia, no ano seguinte.

Foi nomeada uma comissão científica e escolhidos os temas a investigar, num projecto a culminar com a sua publicação em livro. 

 

Livro publicado em Junho/2017 – Edição da Junta de Freguesia de Maceira

 

Além de conferências e outras iniciativas a nível artístico, a efeméride ficou perpetuada por escultura comemorativa, em frente da Sede da Junta de Freguesia de Maceira. 

 

Escultura comemorativa dos 500 anos da fundação de Maceira
(Escultura de Esperança Matos) 

 

Conclusão

 

Ao longo do tempo, em Maceira, as actividades económicas diversificaram-se, o associativismo cresceu, a consciência cívica floresceu e o rosto da freguesia transformou-se, com todos os problemas que isso implica e os novos horizontes que abre. 

A freguesia de Maceira foi elevada à dignidade de Vila, a 20 de Junho de 1991, por decisão da Assembleia da República e na sequência de proposta do deputado leiriense João Poças Santos, sendo vereador da Cultura e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Leiria o Senhor Dr. Vítor Lourenço, defensor exímio dos interesses da população de Maceira.

 

 

Armas e brasão da Vila de Maceira
Atenda-se aos ramos de macieira e seus frutos, ladeando a flor de lis, e as três mós movidas por corrente de água (simbolizando o cereal, a azeitona e a pedra, moídos) 
(Autores: Dr. Luciano Coelho Cristino e Alfredo Manuel Marques Pereira)

 

Maceira tem, hoje, um novo rosto. Novos sonhos foram acalentados, novos projectos abraçados, e rasgados novos horizontes… Também surgiram novos problemas, mas a vontade firme do Povo os enfrentará…

 

 

(Maio/2011)

(Revisto em Junho/2016 e Junho/2017)

 

 〈1〉 Ver J. M. dos Santos Simões, Azulejaria em Portugal nos séculos XV e XVI pág. 128. (Cortesia do Senhor Dr. Luciano Cristino)

〈2〉 Destes tempos recuados terá nascido a ‘Lenda de Nossa Senhora da Mac[i]eira’, romance em quadras simples e belas, impregnado de mística religiosa e de maravilhoso popular, muito comuns no Cancioneiro Popular Português.

Note-se a temática muito ao gosto do Povo, com personagens que encontramos repetidamente na história religiosa popular: Nossa Senhora, crianças pastoras e elementos da Natureza.

(A transcrição da lenda deve-se ao Prof. Ribeiro de Sousa: ver Homenagem aos Professores).

 

Lenda de Nossa Senhora da Mac[i]eira

Ao subir daquele ribeiro
que descai na Fonte Fria
uma pastora mocinha
com seu pai, além, vivia.
 
O rebanho ia pastar
mal o dia se rompia; 
e à hora do sol-posto
o  seu gado recolhia.
 
Ao voltar ela para casa
à tardinha desse dia,
no regaço do avental
maçãs frescas escondia.
 
Nem maçãs, nem outra fruta
nesse tempo ali havia:
era tudo mata agreste
ao redor donde vivia.
 
– «Que maçãs são essas, filha,
que ninguém ora as teria?»
-«A Senhora é que m’ as deu,
e outras mais, se eu as queria…
 
Ela vem todas as tardes
mesmo ao pé da Fonte Fria:
fala e reza ali comigo,
é a minha companhia».
 
– «Minha filha, um tal milagre
Nem por sombra acontecia!
Não será obra do demo
que a tua alma turbaria?»
 
Estava o pai embaraçado
com aquilo qu’ ele ouvia;
e ali mesmo fez sentido
de ir lá ver o que seria.
 
Foi-se pôr, zeloso que era,
à sucapa, de vigia;
e, daquilo que observou,
viu que a filha não mentia.
 
Viu a imagem da Senhora,
que de branco se vestia,
a estender a mão p’rà filha
com maçãs que l’ oferecia.
 
Via o pai a santa imagem,
mas ouvi-la, nã n’ ouvia;
ora a filha, inocentinha,
a Senhora em carne via.
 
– «Venham ver este milagre,
venham todos à porfia;
apareceu além, na Fonte,
a Senhora Santa Maria!
 
‘Stendeu a mão à ‘nha filha,
maçãs traz, maçãs confia:
é a Senhora da Maceira
que nos pede primazia!»
 
Ajuntou-se então o povo
e, no alto, um nicho erguia;
foi buscar a santa imagem
e, lá dentro, a metia.
 
Mas a Senhora, saudosa,
para a Fonte se fugia,
a falar à pastorinha
e a fazer-le companhia.
 
Já tornavam a buscá-la,
assubindo a rampa esguia,
já tornava Ela para a Fonte
e lá estava ao outro dia.
 
Torna o Povo a juntar-se,
tendo à frente a fidalguia;
e alevanta-l’ uma ermida
onde o nicho então havia.
 
Em luzida procissão
lá vão pôr a imagem pia:
a Senhora, ao ver tal fé,
quis a nova moradia.
 
Como prova do milagre
lá ficou a Fonte Fria;
e a Senhora da Mac[i]eira
deu o nome à freguesia!  (variante: é o orago da freguesia!)

 

〈2a〉 Cón. Pereira da Costa, Breve Memoria da Egreja Parochial de Maceira

      Leiria: Typographia Leiriense, 1900, pág. 4. 

 

1.ª Pág. Pereira da Costa (A. Matias)Capa do fascículo escrito pelo Cón. Pereira da Costa

 

  〈3〉 Ver Du Rozoir, Charles, e Dumont, Edouard: Compendio de Historia Romana, Rio de Janeiro, Typ. Imp. e Const. de J. Villeneuve e Comp. 1840, p. 332.

 

 〈3a〉 Sobre este famoso humanista português do chamado «século de ouro» (séc. XVI), foram publicados vários estudos. Entre eles, é de relevar a tese de doutoramento pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, defendida pelo leiriense Doutor Augusto Ascenso Pascoal e publicada na Web em 2002: Aquiles Estaço – Humanista Teólogo.

In:  https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/761/2/Tese_AugustoPascoal.pdf

(pág.38; cons. 2 de Agosto de 2017).

Também o tema «orações de obediência», ou discursos de preito dedicados ao Papa, foram objecto de investigação: A título de exemplo, pode consultar-se o livro de Belmiro Fernandes Pereira, As Orações de Obediência de Aquiles Estaço. Coimbra: Instituto de Investigação Científica, 1991.  

 

〈4〉 Sobre a origem e evolução deste nome (Pocariça), ver Enquadramento Histórico (nota 3). É provável que tenha derivado do nome do proprietário daquelas terras (Mendes Pocarizo).

 

〈5〉 Transcrição do texto do P. Luiz Vieira de Souza, como resposta ao inquérito da Academia Real de História (1721).

Transcreve-se, primeiro, em versão ortográfica actual e, a seguir, respeitando a ortografia original:

 

A)  

 

Códice 1721 b(1.ª página do documento)

 

«Relação das notícias que achei nesta freguesia de Nossa Senhora da Luz de Maceira, Bispado de Leiria e são as que se seguem:

Primeiramente, esta igreja paroquial antes que fosse paróquia foi ermida; intitulava-se a ermida de Santa Maria de Maceira, anexa à Igreja de Santo Estêvão da Cidade de Leiria, a qual cidade naquele tempo era vila e a igreja de Santo Estêvão era paróquia a quem estava anexa a dita ermida; nesta igreja de Santo Estêvão havia beneficiados, e no tempo de hoje os não há já na dita igreja porque dela se passaram para a Sé, nem a tal igreja de Santo Estêvão é no tempo de hoje paróquia, e deixou de o ser quando se erigiu a Sé que ficou sendo paróquia de toda a cidade de Leiria.
O tempo da erecção da dita ermida não se sabe por ser coisa mui antiga e não haver memória da dita erecção; porém, haverá duzentos anos com pouca diferença que a dita ermida se desanexou da dita paróquia de Santo Estêvão de Leiria, e nela se pôs pia de baptizar e cura para administrar os sacramentos aos fregueses; e estes ficaram obrigados a pagar ao dito cura: esta ermida foi então reformada por Sebastião da Fonseca do Desembargo d’El-Rei, Comendador da Ordem de Cristo, o qual tinha uma fazenda junto da dita ermida, e por esta razão e zelo reformou a dita ermida, e mandou nela fazer um templo de bastante grandeza com seus coruchéus em roda que sobem acima dos telhados mais de quinze palmos e a ornou com as jóias e ornamentos necessários, e mandou pôr no tecto da capela maior as suas armas abertas em uma pedra lavrada, a qual está no meio do tecto, entre outras também lavradas com bastante primor da arte, de que o tecto da dita capela se compõem, porque todo é de pedraria. As ditas armas constam por um lado de bancos, pelo outro de dois leões e dois castelos; por baixo, de um leão, e, por cima, de um capacete e sobre ele um leão. Ao dito Sebastião da Fonseca foi concedido o direito de apresentar o cura, com a maior parte dos fregueses, como tudo consta do padrão que há nesta dita freguesia de Maceira feito por ordem do Senhor Infante de Portugal Dom Afonso, Cardeal de título de Santa Luzia e perpétuo Administrador do Arcebispado de Lisboa e dos Bispados de Évora, Viseu, mosteiros de Santa Cruz de Coimbra e de Alcobaça, etc.
O orago desta freguesia de Maceira é Nossa Senhora da Luz a qual está em um nicho no meio de um retábulo que está no altar da capela maior. Tem esta freguesia (sic) dois altares colaterais, um de Almas, outro de Nossa Senhora do Rosário; pelo lado que fica para a parte do poente tem duas capelas, uma é particular, e foi fundada por Francisco da Fonseca, irmão do sobredito Sebastião da Fonseca.
Rompe um arco de pedraria lavrada a parede da igreja e por ela se entra para a capela a qual se intitula a Capela das Chagas: o tecto é de pedraria lavrada com bastante curiosidade e do tecto desce ao altar pela frontaria dele, pedraria lavrada metida na parede, e na tal pedraria tem debuxado, com grande primor da arte, o descendimento da Cruz, a saber três cruzes, duas dos lados em que estão crucificados os dois ladrões, e uma no meio, <ao pé desta cruz está> a imagem da Senhora com a imagem de Cristo morto nos braços; acompanham a imagem da Senhora três imagens das três Santas Marias, <cada ??> e de um e outro lado estão os dois Santos Joseph, e Nicodemos; todas estas imagens são de vulto e de pedra; nesta capela há capelão com missa cotidiana, e é administrador dela Francisco Xavier de Almeida Castelo Branco do Louriçal, Bispado de Coimbra; as fazendas obrigadas a esta capela estão no Bispado de Viseu.
A outra capela é da mesma igreja paroquial e foi feita à custa das ofertas de uma imagem milagrosa de Cristo com a cruz às costas que está na dita capela em uma tribuna < com uma vidraça > que abrange todo o vão da capela e desce do tecto dela até ao altar; esta imagem é de vulto e se trata com toda a veneração; tem ocorrência de romagem pelas muitas mercês e milagres que faz; foi benta por comissão do Ilustríssimo Senhor Bispo de Leiria D. Álvaro de Abranches no ano de 1700, e nesse ano colocada em uma capela que está no Lugar do Arnal junto desta freguesia da Maceira para a parte do nascente. Estava esta imagem em uma tribuna que tem a dita capela; nela fez o primeiro milagre logo depois de benta em a primeira quarta feira de trevas que se seguiu, e foi pela maneira seguinte: No tal dia de 4.ª feira de trevas se ajuntaram os clérigos desta freguesia na capela onde estava a dita imagem e por sua devoção fizeram nela o ofício das trevas a que assistiu alguma gente da freguesia entre a qual se achava um moço que era soldado e se chama Manuel filho de Pedro Ferreira do lugar da Martingança da freguesia de Nossa Senhora da Esperança de Pataias do sobredito Bispado de Leiria, este moço soldado veio ao dito Lugar do Arnal a casa de uns parentes onde se deteve algum tempo; aí emudeceu totalmente e ficou privado da fala sem preceder achaque nem doença; assim esteve mudo algum tempo. Chegado o sobredito dia da 4.ª feira em que se fez o dito ofício diante da sagrada imagem, assistindo ao ofício o dito soldado, aí se apegou com ela pedindo-lhe cordialmente o restituísse à sua fala, e lhe fizesse a mercê de lha dar como dantes. Acabado o ofício, e voltando para casa dos ditos parentes, assim que chegou a ela, rompeu a falar, nomeando uma e repetidas vezes o Santíssimo nome de Jesus, e publicando que o Senhor Jesus, com quem se tinha apegado, lhe fizera milagre e lhe dera fala. Acudiu a vizinhança, e vendo o prodígio, deram todos muitas graças ao Senhor pelo que tinha obrado pois tinham visto a o dito soldado mudo, e o viam com fala perfeita que daí em diante conservou para honra e glória de Deus.
Divulgou-se este milagre por ocasião do segundo, o qual foi desta maneira: Havia no Lugar da Costa de Baixo < desta freguesia > uma mulher solteira que passava de quarenta anos, a qual padecia um achaque no peito, havia uns anos, e nele tinha uma fístula mui grande cercada de outras menores, e nas costas tinha o mesmo. Fez vários remédios, consultando muitos médicos e cirurgiões que por fim a vieram a desenganar de que não tinha remédio humano por ser o seu achaque um bicho a que chamavam cancro o qual lhe ia roendo as entranhas, e a tratava com grandes ansias, por cuja razão lhe punha sustento sobre as fístulas com que o bicho que estava interior se alimentava para a não afligir tanto e ultimamente a avisaram de que o bicho se lhe ia avizinhando ao coração e a havia de matar com brevidade por cuja razão tivesse muito cuidado de andar muito ajustada na sua consciência, e lhe não sentiam remédio. Vendo-se a pobre mulher em tão grande desconsolo, já fazia conta com a morte com brevidade; tendo porém a notícia do sobredito milagre que a sagrada imagem fez ao mudo, uma noite, estando na sua cama se apegou com grande fé com a sobredita imagem prometendo-lhe que a havia de servir enquanto vivesse, indo todos os domingos e dias santos e certos dias na semana à sua capela varrê-la e alimpá-la, e servi-la no mais que pudesse; adormeceu esta aflita mulher e, acordando pela manhã, sentiu as ligaduras com que apertava as fístulas, que eram de grandes bocas, caídas, e acudindo com as mãos as bocas das fístulas imaginando se estaria escoando de sangue, as achou tapadas como se nunca tivessem bocas, e só lhes faltava encourarem, e ficou totalmente livre daquele terrível mal e evidente risco de vida em que estava, e viveu depois disso alguns oito ou nove anos servindo a sagrada imagem como lhe tinha prometido. Sucedeu este 2.º milagre sucessivamente ao primeiro, metendo-se de permeio mui pouco tempo; esta mulher chamava-se Maria João(a) por alcunha Maria pequena; correu a fama deste 2.º milagre, e começaram os fieis de várias partes assim de perto como de longe a visitar com suas ofertas esta sagrada imagem na mesma capela do Arnal onde esteve uns cinco ou seis anos com grande ocorrência de romagem. Passados estes cinco, ou seis anos, foi tresladada esta milagrosa imagem levando-se em procissão para esta igreja paroquial de Maceira onde está na capela que acima fica dito, continuando sempre a mesma romagem com mais aumento pelos muitos milagres que continuamente está fazendo, de que são testemunhas os muitos ex-votos que se acham pendentes pelas paredes da mesma igreja paroquial em circuito da dita capela do Senhor que, nomeando-se pelo Senhor do Arnal, hoje se intitula o Senhor de Maceira. Não se autenticou milagre algum por incúria dos passados e descuido dos presentes.
Está esta igreja paroquial de Maceira distante da cidade de Leiria légua e meia para a parte do Sul, e situada em um terreno bom e frutífero, fresco e abundante de água que corre por uma levada pegada às paredes da igreja e nasce acima dela para a parte do norte em uma penedia a que chamam a fonte do Rei distante da igreja meio quarto de légua.
Há nesta igreja paroquial quatro confrarias, uma é do Santíssimo Sacramento, outra das almas, outra dos defuntos, e outra de Nossa Senhora do Rosário; as três primeiras são antigas e da criação da igreja com seus compromissos, a última que é a do Rosário também tinha a mesma antiguidade, porém no ano de mil e setecentos e dezasseis se erigiu de novo, extinguindo-se a antiga, e foi novamente erecta pela Religião Dominica (sic) autenticamente precedendo as diligências necessárias, assim do Ordinário, como do Prior do Convento de S. Domingos da vila da Batalha, que à dita igreja paroquial de Maceira mandou religiosos a fazer a dita erecção a instância e súplica dos confrades, como tudo consta do Livro do Compromisso da dita Confraria, onde tudo está autenticamente escrito por mão de um notário apostólico, assim os sumários das indulgencias, como todas as petições e despachos que para o caso houve, e o dito compromisso está bem ordenado, e por boa forma e confirmado pelo dito Prior do Convento de S. Domingos da Batalha, e se chama o dito Prior Frei André de Santa Teresa, e esta confraria vai em tanto aumento e com tanto fervor e zelo, que não só se estende por toda a freguesia senão também a todas as circunvizinhas donde em grande número < se vem assentar > nos Livros desta Confraria pelas muitas indulgências que nela há e as não tem nas Confrarias do Rosário das suas freguesias por não serem erectas pela Religião dominica.
Há mais outra Irmandade da Via Sacra com seu compromisso bem ordenado e confirmado pelo Ordinário; terá oitenta Irmãos, e foi instituída no ano de mil e setecentos e catorze; esta irmandade tem sua casa de Confraria no Lugar do Arnal, e nela tem os seus ornamentos; todos os anos fazem eleição dos oficiais que em cada um ano hão de servir os cargos e ministérios da Irmandade que vai com grande fervor e aumento; na quinta dominga da quaresma < de tarde > fazem com solenidade a procissão das cruzes com grande ocorrência do povo assim do da freguesia como de fora dela; principia a procissão na capela do Arnal, e acaba na igreja paroquial, em cujo adro está o Calvário que consta de três cruzes de bastante altura, e de pedra lavrada, postas sobre um altar comprido e de pedra lavrada; desde a dita Capela até ao Calvário se continuam por suas medidas as cruzes necessárias e todas de pedra lavrada e formosas; no princípio da procissão há um sermão à porta da capela e no fim outro sermão dentro da igreja paroquial; a procissão se faz com música de canto de órgão, com anjos que levam os martírios, seu pendão adiante, os irmãos com véstias e tochas, pálio, e debaixo dele um sacerdote revestido de amito, alba e pluvial roxo: com um Cristo crucificado nas mãos; a cada cruz se leem as estações e cantam os músicos seus papeis, além do contínuo canto que fazem no discurso (sic) da procissão em que intentou a Irmandade levar a imagem de que atrás deixo dito e não pôde conseguir licença do Ordinário para lograr o seu intento.
Todo o pavimento desta igreja paroquial é de pedra lavrada, repartido em sepulturas rasas, entre as quais há quatro particulares, uma junto ao arco da capela maior com um letreiro na forma seguinte: Sepultura do P.e Pedro de Oliveira e de seus herdeiros; outro diante do altar de Nossa Senhora do Rosário com um letreiro do teor seguinte: Sepultura do P.e Antonio Leal cura que foi desta freguesia, e de seus herdeiros; outra junto ao arco da capela do Santo Cristo com a cruz às costas com um letreiro que diz assim: Sepultura de Brázia Ribeira e de seus herdeiros; outra junto à porta principal com o letreiro seguinte: Sepultura de Pedro de Souza e de seus herdeiros. Todos estes letreiros estão abertos nas campas das mesmas sepulturas.
Há padroeiro desta igreja paroquial, e apresenta in solidum o cura dela o Doutor Joseph Galvão de Lacerda do Conselho de Sua Majestade, Chanceler mor do Reino, e alcaide mor da vila do Torrão, etc. O Livro assim de casados, como baptizados e defuntos o mais antigo que existe nesta freguesia ao presente é do ano de 1590. O Livro mais antigo das visitações desta freguesia que existe é de 1581.
Esta freguesia tem trezentos fogos; para a parte do poente e sul tem distância de légua, para o norte e nascente tem distância de meia légua; a porção que pagam ao cura dela os fregueses é um alqueire de trigo cada fogo e um quartão de mosto ou dois vinténs por ele.
As capelas que há dentro dos limites desta freguesia são oito a saber uma de S. José entre o lugar da Costa de Baixo, e o lugar da Costa de Cima: haverá noventa anos que foi feita pelo povo daqueles dois Lugares; e esta a fabrica e a provê do necessário porque dela se administra o viático(b) aos enfermos dos ditos dois lugares, e nela lhes diz missa domingos e dias santos capelão a quem pagam. Outra de S. Mamede do lugar dos Cavalinhos que fica para a parte do Norte; haverá cem anos que foi feita pelo povo daquele lugar dos Cavalinhos onde está e o mesmo povo a fabrica e reforma do necessário pela sobredita razão. Outra(c) no Lugar de A-do-Barbas cujo orago é Santiago, não há memória de quando fosse feita por ser antiga; o povo daquele lugar a fabrica e lhe assiste com o necessário pela mesma razão acima declarada. Outra de Santa Luzia do lugar do Porto do Carro para a banda do sul feita no ano de 1549 por Francisco Annes(d) que foi do mesmo lugar; fabrica o povo do dito lugar do Porto do Carro, e lhe assiste com o necessário pela mesma razão já dada a respeito das outras capelas acima ditas; no meio do pavimento desta Capela está uma campa de pedra com um letreiro nela aberto que diz o seguinte: Aqui jaz Francisco Annes(d) o qual fundou esta igreja à sua custa 1549. Outra Capela está junto a esta igreja paroquial para a parte do poente situada em um monte bastantemente alto e é de Santo Amaro; não há memória do tempo em que foi feita, mas alguns indícios há de que haverá 150 anos e que foi erecta por um cónego de Leiria chamado fulano Couceiro e que este lhe deu os ornatos necessários, e de presente a fabrica o Reverendo Cabido da Sé de Leiria por cobrar as ofertas da dita capela. Outra está no Lugar de Maceira chamado também Maceirinha que fica para a parte sul, e é o seu orago S. João; esta Capela é particular, tem missa todos os domingos por instituição que fez Sebastião Fernandez do mesmo lugar e lhe anexou no mesmo sítio fazendas para sua fábrica e para o encargo das ditas missas e hoje é administrador desta Capela e possuidor da dita fazenda anexa Fernando Leyte Costa Pinto da vila da Batalha.(e) Outra está próxima ao adro desta igreja paroquial em uma barroca de grande concavidade e altura, é de Nossa Senhora da Guia; há tradição que esta imagem aparecera em uma barreira da dita barroca e que, trazendo-a para a igreja paroquial a Senhora, ela se tornava ao mesmo posto até que ao pé da mesma barreira se lhe fez sobre a imagem um telhado sobre umas colunas de pedra onde esteve a Senhora muitos anos, e conta-se que aí a iam visitar os fieis com suas ofertas e tivera ocorrência de romagem que não é já há anos, haverá porém 50 anos que um João Francisco do lugar de Maceira, por alcunha o Rico, e com efeito o era, mandou fazer-lhe uma capela(f) no mesmo lugar onde a Senhora estava e de presente está na tal capela, e lhe deu no mesmo sítio um cerrado ou courela de terra para fábrica da Capela e com efeito rende para a Senhora. Outra Capela está no lugar do Arnal para a parte do nascente ao pé desta igreja paroquial, e a mandou fazer o P.e João da Rosa do mesmo lugar do Arnal à sua custa e a preparou dos ornamentos necessários e lhe obrigou fazenda para sua fábrica por escritura que está no Cartório da Câmara eclesiástica da Cidade de Leiria no ano de 1687; e na parede da mesma capela pela parte interior junto do altar mandou embutir uma pedra lavrada na qual se acha aberto um letreiro do teor seguinte: o P.e João da Rosa cura dos Coimbrões deu o chão, dotou e fez esta Capela por sua devoção, pede um padre-nosso pelo amor de Deus.
Estas são as notícias que sei e achei nesta freguesia de Nossa Senhora da Luz de Maceira e para delas constar as escrevi em 8 de Julho de 1721.
                                                           O P.e Cura de Maceira
                                                           Luiz Vieira de Souza»
 In (manuscrito): Noticias Varias para a Historia Ecclesiastica do Bispado de Leiria
                    Biblioteca Nacional de Lisboa: Códice 153, fl. 112 a 116
(a) O Cón. Pereira da Costa na Breve Memoria da Egreja Parochial de Maceira interpretou o manuscrito da Torre do Tombo, lendo (pág. 8) Maria José.
(b) À margem: fica para o nascente
(c) À margem: para a parte do poente
(d) O Cón. Pereira da Costa na Breve Memoria da Egreja Parochial de Maceira interpretou o manuscrito da Torre do Tombo, lendo (pág. 16) Francisco Annão
(e) À margem: foi feita no ano de ?? e a mandou fazer o dito ??
(f) À margem: por sua devoção

 

B)

 

Transcrição do texto do P. Luiz Vieira de Souza, fiel à ortografia do original:   

//[Fol 112] Relassaõ das notissias que achei nesta freguezia de Nossa Senhora da Luz de Maceira, Bispado de Leiria, e saõ as que se seguem:
Primeiramente esta igreja parochial antes que fosse parochia foi ermida; intitulava-se a ermida de Santa Maria de Maceira anexa a Igreja de Santo Estevaõ da Cidade de Leiria, a qual cidade naquelle tempo era vila e a igreja de Santo Estevaõ era parochia, a quem estava annexa a dita irmida; nesta igreja de Santo Estevaõ avia beneficiados, e no tempo de hoje os não ha ja na dita igreja porque della se passaraõ para a Sé, nem a tal igreja de Santo Estevaõ he no tempo de hoje parochia, e deyxou de o ser quando se erigio a Sé que ficou sendo parochia de toda a cidade de Leiria.
O tempo da eressaõ da dita ermida naõ se sabe por ser couza mui antiga e naõ aver memoria da dita eressaõ; porem averá duzentos annos com pouca diferenssa que a dita ermida se desannexou da dita parochia de Santo Estevaõ de Leiria, e nella se poz pia de baptizar e cura para administrar os sacramentos aos freguezes, e estes ficaraõ obrigados a pagar ao dito cura: esta ermida foi entaõ reformada por Sebastiaõ da Fonceca do Dezembargo d’El-Rey, Comendador da ordem de Christo, o qual tinha huã fazenda junto da dita ermida, e por esta rezão e zello reformou a dita ermida, e mandou nella fazer hum templo de bastante grandeza com seos corucheos em roda que sobem asima dos telhados mais de quinze palmos, e a ornou com as joyas e ornamentos necessarios, e mandou por no tecto da capella // [Fol 112v] mayor as suas armas abertas em huã pedra lavrada, a qual está no meyo do tecto, entre outras tambem lavradas com bastante primor da arte, de que o tecto da dita capella se compoem, por que todo he de pedraria; as ditas armas constaõ por hum lado de bancos, pello outro de dous leons e dous castellos, por baixo, de hum leaõ, e por sima, de hum capasete, e sobre elle hum leaõ; ao dito Sebastiaõ da Fonceca foi concedido o direito de aprezentar o cura com a mayor parte dos freguezes como tudo consta do padraõ que ha nesta dita freguesia de Maceira feito por ordem do Senhor Infante de Portugal Dom Afonsso Cardeal do título de Santa Luzia, e perpetuo Administrador do Arcebispado de Lixboa e dos Bispados de Evora, Vizeo, mosteiros de Santa Cruz de Coimbra e de Acobassa, etc.
O orago desta freguesia de Maceira he Nossa Senhora da Luz a qual está em um nicho no meyo de um retabolo que está no altar da capela mayor; tem esta freguesia (sic) dous altares coletrais, um de Almas, outro de Nossa Senhora do Rozario; pello lado que fica para a parte do poente tem duas capellas, huã he particular, e foi fundada por Francisco da Fonceca irmaõ do sobredito Sebastiam da Fonceca.
Rompe hum arco de pedraria lavrada a parede da igreja e por ella se entra para a capella a qual se intitula a capella das Chagas; o tecto he de pedraria lavrada com bastante coriozidade e do tecto dèsse ao altar pella frontaria(1) delle, pedraria lavrada metida na parede, e na tal pedraria tem debuxado, com grande primor da arte, o descendimento da Cruz, a saber tres cruzes, duas dos lados em que estaõ crucificados os dous ladroes, e huã no meyo, < ao pe desta cruz está >(2) a imagem da Senhora com a imagem de Christo morto nos brassos; acompanhaõ a imagem da Senhora tres imagens // [Fol 113] das tres Santas Marias, < cada ?? (3)> e de hum e outro lado estaõ os dous Santos Joseph, e Nicodemos; todas estas imagens saõ de vulto e de pedra; nesta capela ha capelaõ com missa cotidianna, e he administrador della Francisco Xavier de Almeida Castello Branco do Lourissal Bispado de Coimbra; as fazendas obrigadas a esta capela estaõ no Bispado de Vizeo.
A outra capella he da mesma igreja parochial e foi feita a custa das offertas de uma imagem milagroza de Christo com a cruz as costas que está na dita capella em huã tribuna < com huã vidrassa > que abrange todo o vaõ da capela e dèsse do tecto della the ao altar; esta imagem he de vulto e se trata com toda a venerassaõ; tem ocurrenssia de romagem pellas muitas mercês e milagres que faz; foi benta por commissaõ do Illustrissimo Senhor Bispo de Leiria D. Alvaro de Abranches no anno de 1700, e nesse anno colocada em huã capela que está no Lugar do Arnal junto desta freguezia de Maceira para a parte do nacente, estava esta imagem em huã tribuna que tem a dita capela; nella fez o primeiro milagre logo dipois de benta em a primeira quarta feira de trevas que se seguio, e foi pela maneira seguinte: No tal dia de 4.ª feira de trevas se ajuntaraõ os clerigos desta freguezia na capela onde estava a dita imagem e por sua devossaõ fizeraõ nella o officio das trevas a que assistio alguma gente da freguezia entre a qual se achava um mosso que era soldado, e se chama Manoel filho de Pedro Ferreira do lugar da Martinganssa da freguezia de Nossa Senhora da Esperanssa de Patayas do sobredito Bispado de Leiria; este mosso soldado veyo ao dito Lugar do Arnal a caza de uns parentes onde se deteve algum tempo; ahi immudeceo totalmente e ficou privado da fala sem preceder achaque nem doenssa; assim esteve mudo // [Fol 113v] algum tempo; chegado o sobredito dia da 4.ª feira em que se fez o dito offício diante da sagrada imagem, assistindo ao officio o dito soldado, ahi se apegou com ella pedindo-lhe cordealmente o restituísse a sua fala, e lhe fizesse a mercê de lha dar como dantes; acabado o officio, e voltando para caza dos ditos parentes, assim que chegou nella rompeo a falar, nomeando huã e repetidas vezes o Santissimo nome de Jezus, e publicando que o Senhor Jezus com quem se tinha apegado lhe fizera milagre, e lhe dera fala; acodio a vizinhanssa, e vendo o prodígio, deraõ todos muitas grassas ao Senhor pello que tinha obrado pois tinhaõ visto a o dito soldado mudo, e o viaõ com fala perfeita que dahi em diante conservou para honrra e gloria de Deus.
Divulgousse este milagre por occaziaõ do segundo, o qual foi desta maneira: Avia no Lugar da Costa de Baixo < desta freguezia > huã molher solteira que passava de corenta annos, a qual padecia hum achaque no peito, avia huns annos, e nelle tinha huã fistula mui grande cercada de outras menores, e nas costas tinha o mesmo; fez varios remedios, consultando muitos medicos e surgioes que por fim a vieraõ a dezenganar de que naõ tinha remedio humano por ser o seo achaque hum bicho a que chamavam cancro o qual lhe hia roendo as entranhas, e a tratava com grandes ansias, por cuia rezão lhe punha sustento sobre as fistulas com que o bicho que estava interior se alimentava para a naõ afligir tanto e ultimamente a avisaraõ de que o bicho se lhe hia avizinhando ao corassaõ e a avia de matar com brevidade por cuia rezão tivesse muito cuidado de andar muito ajustada na sua concienssia, e lhe naõ sentiaõ remedio; vendosse a pobre molher em taõ grande desconsolo, ja fazia conta com a morte com brevidade; tendo porem a notissia do sobredito milagre que a sagrada imagem fez ao mudo, huã noute estando na sua cama se apegou com grande fé com a sobredita imagem prometendo-lhe que a avia de servir emquanto vivesse, indo todos os domingos e dias santos e certos dias na semana a sua capella varrella e // [Fol 114] alimpala, e servilla no mais que pudesse; adormeceo esta aflita molher, e acordando pela minham sintio as ligaduras com que apertava as fistulas, que eraõ de grandes bocas, cahidas, e acodindo com as maõs as bocas das fistulas immaginando se estaria escoando de sangue, as achou tapadas como se nunca tivessem bocas, e só lhes faltava encourarem, e ficou totalmente livre daquele terrivel mal, e evidente risco de vida em que estava; e viveo dipois disto alguns oito ou nove annos servindo a sagrada imagem como lhe tinha prometido. Sucedeo este 2.º milagre sucissivamente ao primeiro, metendosse de permeyo mui pouco tempo; esta molher chamavasse Maria Joaõ(4) por alcunha Maria pequena; correo a fama deste 2.º milagre, e comessaraõ os fieis de varias partes assim de perto como de longe a vizitar com suas offertas esta sagrada imagem na mesma capela do Arnal onde esteve huns sinco ou seis annos com grande occurrenssia de romagem; passados estes sinco, ou seis annos, foi tresladada esta milagroza imagem levandosse em procissaõ para esta igreja parochial de Maceira onde está na capela que asima fica dito, continuando sempre a mesma romagem com mais augmento pellos muitos milagres que continuamente está fazendo, de que são testemunhas os muitos ex-votos (?) que se achaõ pendentes pellas paredes da mesma igreja parochial em ciricoito da dita capella do Senhor que, nomeandosse pelo Senhor do Arnal, hoje se intitula o Senhor de Maceira; naõ se authenticou milagre algum por incuria dos passados e descuido dos prezentes.
Está esta(5) igreja parochial de Maceira distante(6) da cidade de Leiria legoa e mea para a parte do Sul, e situada em hum terreno bom e fruitifero, fresco e abundante de agoa que corre por huã levada pegada as paredes da igreja e nace asima della para a parte do norte em huã penedia a que chamaõ a fonte do Rey distante da igreja meyo quarto de legoa.
Ha nesta igreja parochial quatro confradias, huã he do Sanctissimo Sacramento, outra das Almas, outra dos defunctos, e outra de Nossa Senhora do Rozario; as tres primeiras saõ antigas e da creassaõ da igreja com seos compromissos, // [Fol 114v] a ultima que he a do Rozario tambem tinha a mesma antiguidade; porem no anno de mil e sete sentos e dezaseis se eregio de novo, extinguindosse a antigua, e foi novamente irecta pela Religiaõ Dominica authenticamente, precedendo as diligencias necessarias, assim do Ordinario, como do Prior do Convento de S. Domingos da villa da Batalha, que á dita igreja Parochial de Maceira mandou religiozos a fazer a dita erecssão a instancia e supplica dos confrades, como tudo consta do Livro do Compromisso da dita Confraria, onde tudo está authenticamente escrito por maõ de hum notario apostolico, assim os sumarios das indulgencias, como todas as petissois e despachos que para o cazo ouve, e o dito compromisso está bem ordenado, e por boa forma e confirmado pello dito Prior do Convento de S. Domingos da Batalha, e se chama o dito Prior Frei Andre de Santa Thereza, e esta confraria vai em tanto augmento e com tanto fervor e zello, que naõ só s’extende por toda a freguezia, senaõ tambem a todas as circumvizinhas donde em grande numero < se vem asentar > nos Livros desta Confraria pellas muitas indulgencias que nella há e as naõ tem nas Confradias do Rozario das suas freguezias por naõ serem erectas pela Religião dominica.
Ha mais outra Irmandade da Via Sacra com seo compromisso bem ordenado e comfirmado pelo Ordinario; terá oitenta Irmaõs, e foi instituida no anno de mil e sete sentos e catorze; esta irmandade tem sua caza de Confraria no Luguar do Arnal, e nella tem os seos ornamentos; todos os annos fazem eleyssaõ dos officiais que em cada hum anno haõ de servir os cargos e ministerios da Irmandade que vai com grande fervor e augmento; na quinta dominga da quaresma < de tarde > fazem com solenidade a procissaõ das cruzes com grande occurrencia do povo assim do da freguesia, como de fora della; principia a procissaõ na capela do Arnal, e acaba na igreja parochial, em cuio adro está o Calvario que consta de tres cruzes de bastante altura e de pedra lavrada postas sobre hum altar comprido e de pedra lavrada; desde a dita Capela athe ao Calvario se continuaõ por suas medidas as cruzes necessarias e todas de pedra lavrada e fermozas; no principio da procissaõ ha hum sermaõ // [Fol. 115]  a porta da capella e no fim outro sermaõ dentro da igreja parochial; a procissaõ se faz com muzica de canto de orgaõ, com anios que levaõ os martirios, seu pendaõ adiante, os irmaos com vestias e tochas, palio, e debayxo delle hum sacerdote revestido de amito, alva e pluvial roxo: com hum Christo crucificado nas maõs; a cada cruz se leem as estaçois, e cantaõ os muzicos seos papeis, alem do continuo canto que fazem no discursso (sic) da procissaõ em que intentou a Irmandade levar a imagem de que atras deyxo dito e não pode conseguir licenssa do Ordinario para lograr o seo intento.
Todo o pavimento desta igreja parochial he de pedra lavrada, repartido em sepulturas razas, entre as quais ha quatro particulares, huã junto ao arco da capela mayor com hum letereiro na forma seguinte: Sepultura do P.e Pedro de Oliveira e de seos erdeiros; outro diante do altar de Nossa Senhora do Rozario com hum letereiro do theor seguinte: Sepultura do P.e Antonio Leal cura que foi desta freguezia, e de seos erdeiros; outra junto ao arco da capella do Santo Christo com a cruz as costas com hum letereiro que diz assim: Sepultura de Brazia Ribeira e de seos erdeiros; outra junto a porta principal com o letereiro seguinte: Sepultura de Pedro de Souza e de seos erdeiros; todos estes letereiros estaõ abertos nas campas das mesmas sepulturas.
He padroeiro desta igreja parochial, e aprezenta in solidum o cura della o Doutor Joseph Galvaõ de Lacerda do Conselho de Sua Magestade, Chanceler mor do Reyno, e alcaide mor da villa do Torrão, etc. O Livro assim de cazados, como baptizados e defunctos o mais antigo que existe nesta freguezia ao prezente he do anno de 1590. O Livro mais antigo das visitaçois desta freguesia que existe he de 1581.
Esta freguezia tem trezentos fogos; para a parte do poente e sul tem distancia de legoa; para o norte e nacente tem distancia de mea legoa; a porssaõ que pagaõ ao cura della os freguezes he hum alqueire de trigo cada fogo, e hum quartão de mosto ou dous vinteis por elle.
// [Fol. 115v] As capellas que ha dentro dos lemites desta freguezia saõ oito, a saber, huã de S. Joseph entre o Lugar da Costa de bayxo, e o Lugar da Costa de sima haverá noventa annos que foi feita pello povo daquelles dous Lugares; e este a fabrica e a prove do necessario porque della se administra o viatico(7) aos infermos dos ditos dous lugares, e nella lhes diz missa domingos e dias santos capelão a quem pagaõ. Outra de S. Mamede do Lugar dos Cavalinhos que fica para a parte do Norte; averá sem annos que foi feita pello povo daquelle Lugar dos Cavalinhos onde está, e o mesmo povo a fabrica e reforma do necessario pela sobredita rezão.(8) Outra no Lugar da Debarbas cuio orago he Santiago, naõ ha memoria de quando fosse feita por ser antiga; o povo daquelle Lugar a fabrica e lhe asiste com o necessario pela mesma rezão asima declarada. Outra de Santa Luzia do Lugar do Porto do Carro para a banda do Sul feita no anno de 1549, por Francisco Annes(9) que foi do mesmo Lugar; fabrica o povo do dito Lugar do Porto do Carro, e lhe asiste com o necessario pela mesma rezão ja dada a respeito das outras capellas asima ditas; no meyo do pavimento desta Capela está huã campa de pedra com hum letreiro nella aberto que diz o seguinte: Aqui jas Francisco Annes(9) o qual fundou esta igreja a sua custa 1549. Outra Capela está junto a esta igreja parochial para a parte do poente situada em um monte bastantemente alto e he de Santo Amaro, naõ ha memoria do tempo em que foi feita, mas alguns indicios ha de que averá 150 annos e que foi erecta por um conigo de Leiria chamado fulano Couseiro e que este lhe deo os ornatos necessarios, e de prezente a fabrica o Reverendo Cabbido da Sé de Leiria por cobrar as offertas da dita capela. Outra está no Lugar de Maceira chamado tambem Maceirinha que fica para o Sul(10)  e he o seo orago S. Joaõ; esta Capela he particular, tem missa todos os domingos(11) por instituissão que fez Sebastiam Fernandez do mesmo Lugar e lhe annexou no mesmo sitio fazendas para sua fabrica e para o encargo das ditas missas e hoje he administrador desta Capela e pessoidor da dita fazenda annexa Fernando Leyte Costa Pinto da vila da Batalha. Outra está proxima ao adro desta igreja parochial em huã barrocha de grande concavidade e altura, he de Nossa Senhora da Guia, ha tradissaõ que esta imagem apparecera em huã barreira da dita barroca e que trazendoa para a igreja parochial a Senhora ella se tornava ao mesmo posto the que ao pe da mesma barreira se lhe fez sobre a imagem hum telhado sobre huas colunas // [Fol 116] de pedra onde esteve a Senhora muitos annos, e contasse que ahi a hiaõ vizitar os fieis com suas offertas e tivera occurrencia de romagem que naõ ha ja ha annos, avera porem 50 annos que um João Francisco do Lugar de Maceira por alcunha o Rico, e com effeito o era, mandou fazerlhe(12) huã capela no mesmo lugar onde a Senhora estava e de prezente está na tal capela, e lhe deo no mesmo sitio hum sarrado ou courela de terra para fabrica da Capella e com effeito rende para a Senhora. Outra Capela está no Lugar do Arnal para a parte do nacente ao pe desta igreja parochial, e a mandou fazer o P.e Joaõ da Roza do mesmo Lugar do Arnal a sua custa e a preparou dos ornamentos necessarios e lhe obrigou fazenda para sua fabrica por escriptura que está no Cartorio da Camara eccleziastica da Cidade de Leiria no anno de 1687; e na parede da mesma capela pella parte interior junto do altar mandou imbutir huã pedra lavrada na qual se acha aberto um letereiro do theor seguinte: O P.e Joaõ da Roza cura dos Coimbrois deo o chaõ, dotou e fez esta Capela por sua devassaõ pede hum padre nosso pelo amor de Deus.
Estas saõ as notissias que sei e achei nesta freguezia de Nossa Senhora da Luz de Maceira e para dellas constar as escrevi em 8 de Julho de 1721. //
                                                           O P.e Cura de Maceira
                                                           Luiz Vieira de Souza»
 In (manuscrito): Noticias Varias para a Historia Ecclesiastica do Bispado de Leiria
                                  Biblioteca Nacional de Lisboa: Códice 153, fl. 112 a 116

 

(Nota: Fica expresso o reconhecimento pelo acesso documental e preciosa colaboração interpretativa, neste contexto, do investigador Dr. Mário Rui Simões Rodrigues)

 

(1) Riscado: do altar
(2) Entrelinha: < … >
(3) ?: Ilegível   
(4) O Cón. Pereira da Costa na Breve Memoria da Egreja Parochial de Maceira interpretou o manuscrito da Torre do Tombo, lendo (pág. 8) Maria José.                                                   
(5) Riscado: esta
(6) Riscadas as três últimas letras da palavra
(7) À margem: fica para o nacente
(8)À margem: para a parte do poente
(9) O Cón. Pereira da Costa na Breve Memoria da Egreja Parochial de Maceira interpretou o manuscrito da Torre do Tombo, lendo (pág. 16) Francisco Annão   
(10) Riscado: poente   
(11) À margem: foi feita no anno de ?? e a mandou fazer o dito instituidor(?) (ilegível por corte)
(12) À margem: por sua devassaõ
Códice 1721 a(Última página do documento) 

 

 〈6〉 Registo de óbito

À margem: Registo nº 22

Henriques Teixeira Guedes

(José)

Averbamento

Por despacho de 21 de Fevereiro último dado num processo de justificação pelo Dr Juiz de Direito da 2ª vara Cível desta Comarca foi autorizada a seguinte rectificação no registo ao lado: – o falecido chamava-se João Henriques Teixeira Guedes e não José Henriques Teixeira Guedes como erradamente foi declarado.

Emolumentos etc…Lisboa 28 de março de 1928

Às oito horas do dia trinta e um do mês de dezembro do ano de mil e novecentos e vinte sete numa casa da R. Palmira cinquenta e seis Rés do Chão, na freguesia dos Anjos, desta cidade, faleceu de cardiopatia um individuo do sexo masculino de nome José Henriques Teixeira Guedes, de setenta e quatro anos de idade, de profissão comerciante, natural de Minde, concelho de Alcanena, domiciliado na casa supra, filho legítimo de Francisco Henriques natural de Alcanena e de Teodora de Jesus Guedes natural de Minde, ambos falecidos.

O falecido era casado com Carolina Adelaide Borges Guedes de sessenta e três anos, doméstica, natural de Torrres Novas, domiciliada na casa onde se deu o óbito.

O falecido não deixou descendentes menores, não deixou bens, não fez testamento e o seu cadáver vai ser sepultado no cemitério de Lisboa segundo alvará do Governo Civil número três.

(Segue-se a identificação de quem fez a declaração e assinaturas).
(Cortesia do Dr. Agostinho Nogueira)

 

 〈7〉 A 16 de Junho de 1945, após celebração da Missa pelo pároco de Maceira P. Horácio Fernandes Biu (ver página Párocos de Maceira), este monumento foi inaugurado na presença de elementos do Governo de Portugal, representantes de órgãos centrais da Caixa de Previdência, Câmara de Comércio e Administração das Empresas de Cimento, Bispo de Leiria D. José Alves Correia da Silva, Governador Civil e Presidente da Câmara de Leiria, outras personalidades civis e militares, o pessoal da fábrica e suas famílias.

Estavam também presentes, além dos alunos e professores das escolas da ECL, um aluno e uma aluna da Escola do Arnal, em representação dos seus colegas, bem como o Prof. Bernardo Paula, o que confirma a ligação do homenageado com a referida Escola do Arnal, que Henrique Sommer terá construído a expensas suas (ver Homenagem aos Professores).

Tomaram a palavra, para homenagear o ilustre fundador da Empresa de Cimentos Liz, o Director da Empresa Eng. António Champalimaud, o Director Técnico Eng. Rocha e Melo, o Presidente da Câmara de Leiria e, por fim, o Bispo de Leiria que exprimiu a sua emoção, dizendo: «Tive a honra de lançar a bênção sobre as primeiras máquinas desta fábrica. Encontro-me agora aqui para lançar, comovido, a bênção ao monumento que se dispõe a glorificar o grande Henrique de Sommer, o grande amigo de Maceira Lis» (Henrique Sommer faleceu a 29 de Março de 1944).

Após a bênção, ouviram-se os clarins tocados por alunos da Escola Primária e os sons da Filarmónica da Casa do Pessoal.

 

ECL - Inauguração MonumentoExtracto da Acta da Reunião de Direcção da Casa do Pessoal às 14H de 19 de Junho de 1945
(Cortesia Secil)  

 

O monumento é de pedra de mármore da região, tem ao centro um medalhão de bronze com a figura do homenageado e, nos lados, as representações laborais (à esquerda), assistenciais e educativas (à direita). Foram seus autores os arquitectos Narciso Costa (Director da Escola Industrial de Leiria, hoje conhecida por Escola Secundária Domingues Sequeira) e Anjos Teixeira. As legendas são do Dr. Américo Cortês Pinto, médico poeta e político nascido em Leiria. O Dr. Cortês Pinto prestou serviços clínicos na ECL durante algum tempo, antes do Dr. Luís Bandeira, e pronunciou um ciclo de conferências, promovido pela Casa do Pessoal, tendo uma delas desenvolvido o tema Ar e Luz.

O nome dado ao parque onde se encontra o monumento relaciona-se com um facto que merece ser recordado. Inicialmente, houve discussão quanto ao nome a atribuir àquele espaço: uns alvitravam «Parque Henrique Sommer», outros «Parque da E. C. L.» … 

Certo dia, um operário chegou ao local de trabalho ligeiramente atrasado e foi, por isso, chamado à Direcção da Empresa. Ao tentar justificar o atraso, disse:

– Vai senão quando, ao atravessar o Parque da Mimóira,

Ao ouvir estas palavras, o engenheiro interrompe imediatamente o faltoso, que ouve a sentença:

– Está desculpado! Esse é o nome a dar ao Parque! 

Assim nasceu o topónimo «Parque da Memória».

 

DSCF3785Coluna evocativa do Parque da Memória, encontrando-se à direita o monumento de homenagem a H. Sommer

 

DSCF3781Entrada do Parque da Memória, tendo ao fundo o edifício da Casa do Pessoal da E. C. L.

 

〈8〉 Estas informações foram gentilmente cedidas pelo neto de Joaquim Frazão, Ernesto Frazão Pereira dos Santos, a quem se exprime gratidão.

 

 

 

 

 

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